O utópico frescor do discurso

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2017


O curta-metragem “Estamos Todos Aqui”, do casal de diretores Chico Santos e Rafael Mellim, exibido no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 2017, é um filme rebelde e colaborativo do Coletivo Bodoque de Cinema, onde investem na comunicação a favor de movimentos sociais e organizações que lutam pela libertação e autonomia dos povos.

Sua narrativa híbrida, por condensar ficção, elipses e documentário, busca a estrutura clássica da câmera estática nos entrevistados. É uma obra conceito. Urgente. Passional. Enérgico. Orgânico. Catártico. Que crítica socialmente a fuga ao bom combate. A personagem interpreta a realidade (do “ou come ou mora”) que aceita as vicissitudes do cigarro e bebidas, como “descansos”. É sobre o desespero do desalojamento. Sobre estar à margem em um submundo invisível.

Na Favela da Prainha, às margens do Porto de Santos, Rosa tenta construir seu próprio barraco em meio à mobilização da comunidade diante de um despejo iminente. Luta-se pelo direito de “ganhar” uma casa e sair do mangue. É a “sorte” de se estar no cadastro. Neste universo, não atores, moradores locais, são integrados em uma grande construção que improvisa a própria vida com a projeção da encenação, cuja atmosfera encontra semelhança no filme “Bandeira de Retalhos”, de Sérgio Ricardo.

“Estamos Todos Aqui” é sobre instantes vividos segundo à segundo. É cinema direto, bruto, cru e popular. É também metalinguagem (“O que você acha que a personagem deve fazer no final do filme?”, pergunta). “Como termina essa história?”. É sobre ricos roubando dos pobres. Sobre comer da miséria dos outros. É um filme militante, imbuído de vigor, esperança e mudanças por um coletivo que ainda acredita que o cinema e ou o discurso poderá salvar as desigualdades de um país terminal, inter-seccionando a luta por moradia ao debate sobre vivências periféricas marcadas pelas questões de gênero e sexualidade.

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