Fatos Contados

Por Fabricio Duque


Na arte cinematográfica, histórias representam o material bruto da construção. Fato. Inquestionável. É a retro-alimentação da ação e reação. Primeiro acontece, depois é transformada e perpetuada pelas lentes das câmeras. E sim, respondendo suposições retóricas, toda e qualquer história deve ser contada, principalmente aquelas que precisam ser perpetuadas em um militante confronto direto.

“O Caso do Homem Errado” é uma dessas lembranças que pedem justiça social ao abordar morte do inocente Júlio César de Melo Pinto, o operário negro “boneco” que foi executado em Porto Alegre pela Polícia Militar, nos anos 1980, que estava no lugar errado na hora errada. A tragédia que ocorreu há mais de trinta anos na parte gaúcha do Brasil caiu no esquecimento. E não há como o público não referenciar a da política brasileira Marielle Franco e ou de Amarildo.

A diretora e jornalista Camila de Moraes traz em seu filme de estreia um documento de investigação jornalística. Foram mais de dez anos de produção. Exibido no festival Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul 2018, e um dos finalistas indicados pelo Brasil para concorrer uma estatueta do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, é sobre o “risco de ser preto e pobre”, tema este já abordado, com lente de aumento, no documentário “Rio do Medo”, de Ernesto Rodrigues. É o eterno embate poder da polícia versus a submissão do indivíduo popular.

Na exibição no Museu de Arte do Rio, a diretora no debate exibiu dois vídeos, só que um deles, que era sobre outro tema e foi descartado, conseguiu resumir e traduzir o comportamento sulista, quando a repórter de um canal de comunicação disse que “há os gaúchos, os brasileiros e os outros”. Desde sempre, o Sul deseja a separação. Tornar-se independente, livre e autônomo. Isto pode explicar talvez inferências: uma cúmplice ingenuidade superior, uma necessidade de competição desenfreada, uma defesa auto-superprotetora, um vitimismo embargado quase carente de atenção, uma vaidade em listar prêmios (os “cinquenta e seis” do fotógrafo Ronaldo Bernardi) e uma ostentação em mostrar bastidores-metalinguagem do filme em questão aqui. Talvez seja o chimarrão!

Por que esta apresentação? Porque sua diretora reclamou que a imprensa brasileira não “está ligando para seu filme”. Perdoe-me, Camila, mas precisamos discordar. Nosso site entrou em contato com você, solicitamos o link do filme para que pudéssemos realizar a crítica e obtivemos um não. Esse incidente aconteceu com outros veículos. Assim, nós, da imprensa crítica, fomos impossibilitados de conferir a obra que galgou o sucesso e está na corrida ao prêmio dourado americano. Sim, são águas passadas. Agora, visto, podemos finalmente opinar. Vamos à crítica propriamente dita então!

“O Caso do Homem Errado” opta pela narrativa clássica. De entrevistados depoentes (a viúva Juçara Pinto, policiais, repórter, jornalista) que contam suas percepções e lembranças detalhistas do caso. Com a presença de duas câmeras, uma em plano aberto e outra em close, o documentário desenvolve-se como uma matéria denúncia jornalística de protesto, com inserções da diretora caminhando pela rua com a foto da “vítima oculta”. É livre em sua forma urgente e amadora nas imagens captadas, preocupando-se muito mais com o conteúdo propriamente dito. É a história que possui toda relevância ao revelar e expor os erros, as manipulações, as mentiras.

É um filme passional, dotado de emoção pessoal, sentida nas notas musicais de um sax, que suavizam o drama, romanceando o acontecido. E também pela fotografia, ora monocromática, ora sépia, ora colorida, que busca um elemento imagético de reviver no agora a sensação nostálgica do passado. “É a mais pura verdade, apesar das mentiras”, diz-se. Memórias são despertadas como um filme. O linchamento, a testemunha ocular da atrocidade dos policiais, a resposta do movimento negro do Rio Grande do Sul, a comunidade colaborativa do jornalismo, os ativistas dos direitos humanos, a sentença secreta pela Justiça Militar, o “cheiro de rosas”, as “meias pretas”, a “sensibilização superficial”, os “quatrocentos e vinte e cinco passos separados do homem certo”. Tudo para comprovar que “nada mudou até hoje”. É desesperançoso, assustador e desmotivador. “Até quando?”, pergunta-se.

“O Caso do Homem Errado”, com um que de sensacionalista à moda de Truman Capote, é sobre questionar a mentalidade popular que acredita que “bandido bom é bandido morto”. Que negros e pobres estão mais “próximos” (e sofrem mais) do Auto de Resistência. “Negro parado é um suspeito, correndo é culpado”, mais uma frase massificada. É uma crítica ao assassinato dos negros apenas por serem negros. É uma obra de confronto choque, de reacender a chama da luta na população. Contudo, falta inovação na narrativa. É crua, dura e caseira. Sua diretora finalizou com emoção embargada o debate, dizendo que a experiência do filme foi demais e altamente desanimadora, tudo por causa das dificuldades de se fazer cinema. Um conselho: não desista! Mas também não brigue com a imprensa!


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