A Béla e salvadora maldição nossa de cada dia

Por Fabrício Duque

Publicado na Revista Lume Scope


Assistir a um filme do diretor Béla Tarr (Tarr, Béla) é muito mais que uma experiência imagética por causa de sua fotografia plástica e sistematicamente construída. É uma imersão às existências de indivíduos sociais que sobrevivem com esperas, resignações, ócios sem perspectivas e tédios. O cineasta húngaro imprime sua autoralidade conceitual nos discursos que se embrenham como monólogos desabafados e confessionais, e principalmente nas performances musicais explicitamente impotentes de uma vida zumbi de “mortos-vivos”.

“Danação”, de 1988, muito próximo da queda do muro de Berlim, que se desenvolve em um ambiente inóspito, chuvoso, enevoado, friorento e apocalíptico do leste europeu, é apresentado por uma fotografia em preto-e-branco, coloração esta que pausa a nostalgia do passado fazendo com que sintamos a carga palatável e concretista no presente. No nosso presente. Como se viajássemos ao tempo levando apenas nossa sinestesia.

A obra é um estudo de caso, um retrato, uma parábola realista e extremamente atual sobre um país desesperançoso, de moradores fantasmas mais à moda um “Asas do Desejo”, de Win Wenders, que “Um Homem Sem Passado”, de Aki Kaurismäki. Esses seres ficcionais estão à margem, fora dos próprios corpos em uma epifania etérea versus um vazio desistente versus uma loucura versus uma aguçada verdade observada versus um descanso libertador e fantasioso de sapatear como “Cantando na chuva”. “Há varias formas de escapar”, diz-se. Sempre existe um caminho, uma ideia, uma ideologia e ou algo defensivo que aprisione para proteger. Nós adentramos em uma estética visual, por planos longos, contemplativos, que estendem a percepção coloquial-encenada das micro-ações cotidianas (completamente retratadas – mudar a roupa, sentar e esperar cozinhar as batatas), inserindo o espectador no tempo ocioso da narrativa atemporal.

Suas personagens participam como coadjuvantes, tendo a própria vida e a existência como elemento personificado e exponencial. “Minha loucura é prevista pela irreversibilidade da vida”, diz-se em um discurso quase liquidado de confronto com a mais remota insinuação de uma futurista liberdade esperançosa. Mas também o que fazer? Recomeçar de um fim que já não causa estímulo, tampouco excitação e contra o esforço “patético” e conformista.

“Danação” ou “Maldição” pulula de forma pragmática uma adjetivação desoladora e analítica ao contar a história. Seus suspiros, seus olhos fechados, seus cigarros, suas bebidas e suas cenas pré-durante-pós sexo são transposta como a mais pura espontaneidade de um orgânico cotidiano “pocilga”, amador, quase de uma cúmplice e caseira comunidade, que faz com que viajemos psicologicamente a “Acossado”, de Jean-Luc Godard. Eles comportam-se como crianças adultas, internalizando com afinco e resistência um “poder furtivo e oculto”. O longa-metragem é constantemente comparado a Andrei Tarkovsky e Michelangelo Antonioni, respectivamente pela construção de um poético, sensorial e cósmico visual (fotografia de Agnéz Hranitzsky) e pela presença da atemporalidade do tempo silêncio (não silencioso, muito menos tendencioso à lentidão – um que de “Profissão Repórter – O Filme”).

“Danação” é um embarque de dentro para fora na mitigação emocional de suas personagens. É uma cruel autópsia (pelo estágio ainda vivo) dos acontecimentos, das melancólicas paisagens, frustrações e quereres a volta à superfície envolta na banalidade das escolhas e vivências, por exemplo, um triângulo amoroso. É tudo sobre Karrer (o ator Miklós B. Székely) que “acorda” de seu transe, alienação e infortúnio. É um filme físico da ação que gera sempre uma reação. Nosso protagonista encontra-se nesta fase deste metafórico processo (pela referência ao Bar Titanic), que está prestes a afundar. A água chega com mais frequência. Chove torrencialmente com lama, cachorros e sem tréguas em meio às ruínas contra uma “multidão colorida em perfeita harmonia” e ao encontro de “ser um voo”. Todo e cada um busca o afastamento definitivo de seus instintos, de suas solidões e de se tornar um dogman, e o conforto ainda que não sadio e saudável da idiotização (felizes são os ignorantes).

“Danação” é incomodamente atual. É desesperadamente representativo. É perturbadamente arredio. É amargamente acalentador. Sim, é um filme paradoxo de buscas e fugas. Uma terapia reversa. Uma afinidade desestruturada que nos assenta em nossas limitações mais submissas. É também uma retórica de perguntas sempre feitas, que nunca foram caladas e que estão longe de ser respondidas: E agora? O que faremos agora? Qual o próximo passo? É um insight que diz que não estamos sozinhos. Que talvez nossos sonhos sejam utópicos e inalcançáveis demais. Que nossa lura diária e constante pelo progresso constituí-se como um “tiro no pé” de um medo defensivo que nos empareda e nos protege de iminentes decepções em uma Hungria solitária e decadente.

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