Inocentes corridas

Por Fabricio Duque


Toda e qualquer análise de uma obra cinematográfica é muito mais complexa do que parece, ainda que o filme em questão seja apresentado de forma mais simples e comum. É preciso observar suas características singulares, e definidoras, àquelas inerentes em sua construção.

Principalmente, se o gênero for de animação. Há muito nós espectadores já entendemos que nem todo exemplar animado é necessariamente infantil. Mas alguns são exclusivamente sim e direcionados a uma geração de pequeninos pequenos, crianças estas que alimentam seus dias consumindo televisivos desenhos animados.

“Wheely – Velozes e Divertidos” é um deles e busca uma inocência mais pueril pela fácil e mastigada trama, que objetiva mais o humor direto que a sutileza perspicaz da referência, mesmo que se comporte como uma versão para menores da franquia “Velozes e Furiosos” com “Carros”, da Pixar.

É um filme para toda família, desenhado pela estrutura politicamente correta dos temas abordados. Contudo, quem possui um pouco mais de idade consegue perceber pontuações críticas: a modelo carro (a representação máxima da beleza) que encanta todos os outros carros (a reiteração da mentalidade social e do imaginário popular), e ou a figura da preconceituosa policial (mais preocupa com a fama e holofotes que com a exata solução do caso), e ou a permissão das corridas na cidade. E ou o verborrágico amigo-parceiro Putt Putt (um facilitador serviçal).

Dirigido por Yusry Abdul Halim e Carl Mendez, “Wheely – Velozes e Divertidos” é um representante da Malásia, cuja percepção de lá talvez acredite que animação precisa ser indicada ao público mirim. Não houve sessão prévia aos críticos, apenas uma pré-estreia no cinema Playarte Splendor no Shopping Pátio Paulista, em São Paulo.

Em Gasket City, uma cidade onde todos os moradores são carros, vive Wheely, um pequeno táxi verde e amarelo que sonha em se tornar o Rei da estrada. Para isso, ele precisará provar que é um verdadeiro herói enfrentando os carros de elite e o terrível caminhão de 18 rodas, que comanda o sindicato de carros de luxo da cidade.

“Wheely – Velozes e Divertidos” enaltece um roteiro frágil e ingênuo, sendo naif até para as crianças, que durante a exibição não conseguiram prender a atenção no que estavam vendo. Os altinhos pais, também mais agitados com seus celulares na mão, tentando “domar” seus filhos, alegaram que os realizadores simplificaram demais, sem nada do humor espirituoso do Cartoon Network, mas com muito de discurso auto-ajuda de Teletubbies.

Assim, a narrativa perde seu equilíbrio pelo extremismo não dosado, ora alto demais, ora baixo demais. Wheely, com seus traços simples e com fragmentadas elipses temporais, perpassa uma submissão, uma resignação sem propósitos, ainda que se “transforme” em rebelde (com um que de James Dean em “Juventude Transviada”, de Nicholas Ray.

A fotografia de “Wheely – Velozes e Divertidos” está mais para uma experiência de um jogo de videogame com seres “transformers” personificados, que agem como humanos, pensam como humanos e erram (muito) como humanos. O filme é o que a psicanálise define como uma obra espelho. Que suaviza idiossincrasias pela fantasia, em que tudo é possível, indefinido e indestrutível. Que permite que o público possa se olhar, analisar “dicas” sem a brutalidade da realidade.

Pois é, o resultado fica aquém do esperado. Nós vivemos em um mundo de exageradas sagacidades de não mais duplos sentidos. Agora, plurais e ilimitados. Não há mais espaço para a inocência. Contudo, se nós adentrarmos na cinematografia dos realizadores da Malásia (veja as matérias “O Novo Cinema da Malásia”, “Modelo Malásia” e “Panorama da Malásia”), encontraremos na fala de Tatiana Leite (a curadora da mostra que aconteceu em 2010 no Rio de Janeiro), “Singeleza das imagens. Força das imagens. Poesia. Despretensão. Arrebatamento”), um viés de pureza intrínseca, de valores morais mantidos, de pausar o tempo contra o sarcasmo das palavras e das ações.

“O que é importante colocar no seu texto é a palavra despretensão. Existe uma mistura de despretensão e poesia. Essa simplicidade dela é muito cativante. Os filmes hoje têm um nível de pretensão. O cinema malaio vem na contramão e aproxima mais você da imagem. Acessibilidade dos diretores que também são simples. Reconhecimento nos festivais a fora. Uma troca entre o Brasil e a Malásia. Dois cinemas que podem se comunicar”, finaliza Tatiana Leite.

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