A brutalidade da imposição de se lutar pelo que se é

Por Fabricio Duque


Exibido no Festival Varilux do Cinema Francês 2018, o novo filme “Marvin”, da diretora Anne Fontaine, de “Coco Antes do Chanel”, é uma odisseia existencialista sobe a aceitação de ser realmente quem se é, por uma narrativa que busca a poesia da memória poética, que fragmenta digressões (intercalando passado, presente e suas projeções) igual a uma sessão de terapia de vidas passadas de atmosfera etérea e fora do próprio corpo.

Seu protagonista vivencia as lembranças como em um livro. Igual a um teatro, que encena a naturalidade para construir a espontaneidade libertária do sentir. É um estudo de caso, uma performance da própria vida, que utiliza a metáfora do balé contemporâneo para elencar as mais veladas dificuldades da alma ao “futuro artístico”.

“Marvin” desenha uma estrutura (inevitavelmente não comparar pela predileção da primitiva habilidade ao balé) a “Billy Elliot”, de Stephen Daldry, uma versão afrancesada do querer a perfeição à moda de “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky. Nós, espectadores, mergulhamos juntos na transposição da própria vida do protagonista ao tom ficcional do teatro. A autobiografia em encenação com sensações despertadas, medos expostos e com verdades que libertam a catarse de se afirmar e lutar pela manutenção desta aceitação.

Martin Clement (o ator Finnegan Oldfield, que veio ao Brasil durante a mostra francesa), nascido Marvin Bijou, escapou da aldeia onde morava com o pai retrógrado e tirano (“Bicha é coisa de retardado, é uma doença mental”) e a mãe que o renunciava. Sobreviveu ao bullying da escola (“por parecer mocinha”) e os abusos sexuais de seus colegas. E busca força na ajuda da professora (que dá aula sozinha e que o apresenta “Molière” – “é mais fácil complicar a vida de um mau aluno”). Apaixonado por teatro, ele junta aliados para conseguir fazer com que seus sonhos virem realidade. Desde a diretora de sua escola até Isabelle Huppert, ele arrisca tudo para conseguir produzir seu show e alcançar o sucesso.

“Marvin” é uma crônica de uma entre tantas vidas de crianças “diferentes”, que estão na descoberta de suas mais intrínsecas e dominantes características. É o que podemos chamar de um ser mais sensível e mais próximo da feminilidade. A câmera contempla seus silêncios, sua tímida introspeção e sua disfuncional família, preconceituosa e limitada, com um que de “Canastra Suja”, de Caio Soh, em um orgânico cotidiano.

Martin, ainda Marvin, observa sem julgar, absorvendo o máximo do que vê para assim poder construir suas percepções definidores e adjetivadas sobre os outros e principalmente sobre si mesmo. A mãe ensina “a realidade” e a “verdade”. Talvez aos mais “descolados” e simpatizantes naturalistas pela tolerância (de cada um ser o que quiser ser), o filme soe um tanto quanto ingênuo, militante demais e exageradamente desgraçado. Mas não é.

O longa-metragem, de narrativa não linear, busca uma análise antropológica comportamental sobre uma sociedade machista, com suas impositivas regras homofóbicas, ainda que se estudarmos mais à fundo, perceberemos o “tom gay dos filmes héteros da guerra”. Nosso personagem assiste ao ódio (a pichação de morte aos “viados”) e entra em crise por descobrir cedo a sexualidade, ainda estranha, pelo valentão da escola (este que representa o estar enrustido – o medo dos outros que gera o desejo escondido que por sua vez desencadeia uma protetora agressividade).

Pois é. Não é fácil. Mas nós conversamos com nossos botões e perguntamos: Por que é preciso esconder quem é para agradar submissamente o outro (que talvez também seja e esconda da mesma forma)? A retórica é quase respondida de forma óbvia. Mas o porquê continua. “A opressão começa antes de qualquer ato de opressão”, diz-se com “a morte espreitando”.

“Marvin”, ao ser obrigado a sair da caverna interiorana, descobre as possibilidades reinantes do mundo. E outros iguais que vivenciam suas afinidades. E jantares com os amigos. Torna-se livre, sem rótulos, permitindo perceber os detalhes do corpo. É a máxima do auto-conhecimento. Pleno, composto, puro, complexo, único e mitigado de amarras, vaidades, culpas, intimidações e medos (“o medo só faz mal”). É uma história de amor. Um espectáculo improvisado da própria vida no futuro. Uma terapia melancólica de libertação (principalmente o passado vivido), que define palavras exatas para exatos sentimentos e comportamentos. “Palavras têm asas e podem voar”.

É também um filme de ações, militante a tolerar os diferentes, os excêntricos, as manias. Trabalhar pelado, a diversão, o parque, a dança, causar interesse e confusão. “A difícil arte de ser gay”, diz, lidando com os limites tênues da apatia, resignação, falta de perspectiva, da ofensa e violência versus a não desistência de se chegar ao lugar merecimento. Antes o desconforto, agora o natural. “Não pense muito, aja logo, é o segredo: se o acrobata pensar muito, ele cai”, ensina o “exílio”, entre jogos, flertes, garotas (à moda de Xavier Dolan – com trilha sonora “Sexual Healing”, de Marvin Gaye) e o sexo violento, marcado e sem proteção.

“Marvin” é sobre o passional. Sobre os “afetos dos bêbados”. Sobre o ser e estar objeto. Viver a imaturidade do excesso ao equilíbrio da personalidade. “Não se faz nada pela metade”. Caravaggio e o “efeito do Jaguar nos meninos” (“Bichinha proletário que pega um atalho para mudar de lado”). E citação a Samuel Beckett. É sobre oportunidades, sobre “não olhar para trás” e sobre “o que fazemos é o que conta”.

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