A epopeia de Mariano Llinás

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2018


Estive me perguntando como eu escreveria uma crítica sobre o famigerado “La Flor”, o longa de quatorze horas de duração da “El Pampero Cine”, dirigido pelo Mariano Llinás, que pude assistir durante o Cine BH. O filme é dividido em seis episódios, cada um independente. Não acho saudável, tampouco produtivo, me debruçar sobre cada episódio, isso porque grande parte do apelo que existe no projeto, vem da expectativa dessas narrativas, por isso o máximo que farei é dar um parecer geral sobre cada um.

Como pode-se imaginar “La Flor” é um filme irregular, longe de ser ruim, porém, são dez anos de filmagem, é extremamente compreensível que haja uma discrepância entre os períodos.

Assim que começou a projeção do longa, o diretor aparece na tela e tenta explicar como funcionará a espinha dorsal do projeto. Após a postura mais egóica do ano, o filme se inicia. A primeira parte, das três, é a mais curta, com suas três horas e quarenta, ele desenvolve duas histórias. A primeira, um suspense e a segunda, um musical, com suspense. Durante o início da primeira, o diretor usa o plano sequência para destacar as diferenças entre duas personagens, o que funciona muitíssimo bem. Passa a brincar com a linguagem ao introduzir um elemento sobrenatural na trama. Existe uma construção, não muito sólida, em torno do suspense que um determinado elemento possui, mas como uma brincadeira com o gênero, funciona bem em mesclar o desenvolvimento das personagens com suas peculiaridades diante da possível ameaça.

Um jogo de sedução do medo se inicia, e Mariano Llinás, compreende que parte dessa proposta se dá na linguagem, mas grande parte na atuação de suas atrizes. Tudo vai ficando menos interessante com o passar do tempo e quando a obra está quase se esgotando, acaba. Cumprindo com o que o diretor fala da primeira vez que aparece, muitas histórias não tem fim. Já no segundo momento, o musical, as coisas ficam mais divertidas, isso porque em um dos primeiros planos, vemos um homem cantando, além dele cantar extremamente mal, não há acompanhamento sonoro, o que nos leva a um segundo gênero que ele explora, a paródia. É uma história de amor, com elementos de suspense que parecem ter saídos de um filme do Shane Black, tudo é muito direto e absurdo.

“Tranquilo”

Para quem já viu, vai entender. Enquanto musical, ele possui sua própria estética, não há quebra de misancene, nem nada próximo. Apenas, personagens cantando, pois, são músicos. O ritmo é prejudicado pela quantidade de histórias paralelas que são apresentadas, mas, a interpretação das atrizes consegue segurar o espectador. Todas elas são brilhantes. Tenho uma preferida, que faz o par romântico nessa história específica. A comédia é introduzida de maneira bastante orgânica e uniforme, não à toa, as pessoas saíam da sala comentando sobre o humor do filme. Assim como a história anterior, essa também não possui fim. A narrativa desta parte é carregada de um ar novelesco, seus pontos de virada são hiperbólicos e escancarados. Ao fim, não é diferente, existe um lastro de exagero que gera uma boa risada e uma expectativa alta para a parte 2, não há como negar.

No segundo dia, foram cinco horas e quarenta de sessão, apenas um episódio. Mas devo dizer, valeu a pena. É uma história de espionagem, extremamente complexa, com as quatro atrizes como protagonistas. Trata-se de uma verdadeira epopéia através da vida das personagens, pois, ele conta uma a uma de maneira bastante eficiente. Ainda que haja favoritismo em alguma das histórias, o todo, é muito satisfatório. Além disso, a linguagem do diretor consegue ser fluida o suficiente para transitar entre tempos e espaços diferentes sem soar como uma digressão estrondosa. A história do casal de espiões foi a favorita da grande maioria das pessoas, isso porque, além de ser uma das mais intimistas, consegue ser uma das mais ágeis, ela é longa, mas não soa cansativa. Não quero me estender mais nesta parte, pois, qualquer informação será um pecado. Apenas posso dizer, que é a minha favorita.

No terceiro e último dia, vimos os últimos três episódios. Infelizmente nenhum deles me impactou. O primeiro é uma ficção científica, com uma comédia bastante ácida, que vira para um jogo poético ao ir para seu encerramento. Possui umas brincadeiras de metalinguagem que são engraçadas, usando sempre a repetição como chave dos ganchos cômicos. E um pouco lento o progresso desta narrativa.

Enfim, o segundo/quinto episódio, é uma tentativa de releitura do conto de Guy de Maupassant “Une Partie de Campagne”, e uma espécie de remake contemporâneo do filme homônimo do Renoir.

É extremamente frágil, sua releitura soa falsa e sem alma, não consegue encantar na estética, nem no roteiro. Neste episódio especificamente, ele não trabalha com as quatro atrizes de sempre, justificando sua última aparição no filme, dizendo que achou que seria bom dessa maneira. Os atores não são bons, nem carismáticos. É um desastre total, nada funciona. Se tanto Renoir e Guy compreendiam que esta narrativa precisa de um erotismo suave, mas crescente, Llinás atropela tudo num pretensiosismo fútil. Realmente, é uma tragédia.

O último episódio, é um belo adeus ao projeto. Que funciona pela exaustão do público, que neste momento já cansado do filme, vê nesse ato uma espécie de homenagem a si. Por mais que seja egocêntrico, funciona pelas belas passagens que permite o espectador apreciar, enquanto nos despedimos do longa. “La Flor” é uma grande obra, complexa e riquíssima. Mas possui alguns episódios frágeis demais e um problema de ritmo que arrastam ainda mais as suas 14 horas. Porém, sem dúvida, é um filme que será eternizado na história do cinema contemporâneo na Argentina.

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