Sci-Fi do Trump

Por Vitor Velloso


Hollywood é a maior criadora de clichês da história do cinema e a que menos sabe usar suas próprias criações. E sempre que pode provar sua incrível habilidade para construir histórias que ninguém quer ver e personagens que ninguém se importa, ela o faz com uma vontade impressionante. Assim, nasce “Kin” o novo produto da preguiça cinematográfica produzido pelas mesmas pessoas que realizaram “Uma Noite no Museu” e “Stranger Things”, bom…

Partindo de um dos conceitos mais batidos do gênero Sci-Fi, um garoto, Eli (Myles Truitt), encontra uma arma futurista e, obviamente, não sabe o que fazer com isso, coincidindo com o retorno de seu irmão, Jimmy Solinski (Jack Reynor), ex-presidiário, Eli protege seu irmão de uma gangue liderada por Taylor Balik (James Franco) e de uma espécie de força policial esquisita que está indo atrás da arma. A sinopse básica é essa, mas existe além disso, uma leitura básica do background do protagonista, um negro adotado por uma família de brancos.

Temos aqui um caso de proto fascismo na tela, onde acompanhamos uma criança armada, sendo obrigada a enfrentar o crime por uma dificuldade na vida de se recompor de seu passado e munido de uma arma grande para uma casseta, e um grande coração, precisa defender seu irmão. A questão política aqui é bem clara, devemos creditar nos cidadãos a esperança de defender-se de situações limítrofes, principalmente, aqueles que vivem à margem da sociedade (margem essa que as pessoas que aprovaram esse pensamento criaram). Enquanto o espectador é bombardeado por um roteiro preguiçoso, bagunçado e nada original, ao menos recebe estímulos visuais, formais, que possuem alguma característica mais marcante que o resto do projeto. Consequentemente, roteiro e direção parecem caminhar para lados opostos.

A relação construída entre os irmãos, funciona parcialmente, já que o carisma dessa relação está na distância entre eles. É muito difícil ponderar se eu me importava com algum dos personagens, provavelmente não, apenas com o conjunto, que ainda é extremamente frágil e clichê, afinal eles foram criados pelo Dennis Quaid. Complicando ainda mais toda essa estrutura de filme familiar, temos um desenho um bocado equivocado de um road movie, e nesta fórmula os diretores Jonathan Baker e Josh Baker, conduzem sua narrativa, de uma maneira extremamente castrada mas que possui algum estilo. Existem diversos casos onde a forma consegue sobrepor o conteúdo e ainda assim, se tornar algo, formalmente, interessante.

Em “Kin” não existe um contraponto tão forte a ponto de justificar o que é projetado, trata-se apenas de mais um caça-níquel norte americano, que tenta impor através do imperialismo suas ideologias. Nada que não tenhamos visto antes. O que piora tudo, é que o filme provavelmente fará algum sucesso, já que possui um apelo popular notório, uma forma que agradará a família e um escopo de história de adolescente. Escutei alguém fazer um comentário super válido ao fim da projeção “Trocaram pólvora por laser para deixar isso família”.

Zoe Kravitz, mais uma vez, escolheu um projeto onde não tem espaço e que é demasiadamente genérico para que algum esforço seja realizado. Assim como “Mentes Sombrias” era um amontoado de coisas, mas nenhuma delas eram bem utilizadas, “Kin” também sofre deste problema e curiosamente um dos produtores é o mesmo. A proposta utilizada para se estilizar algumas sequências de ação não passam de um detalhe em neon ou uma coisa específica do figurino/direção de arte, pois, do ponto de vista formal existem apenas enquadramentos estéreis e simétricos para que se possa remeter a uma estetização do futuro. Mas aí um exemplo recente de filme pode ser utilizado. “Upgrade” dirigido por Leigh Whannell, possui uma situação mais sólida quanto a ideia de cinema que pretende perpetuar, logo, consegue enraizar a atenção do espectador à sua adrenalina constante. E no longa dirigido pelos irmãos Baker, é nítido que grande parte desta energia narrativa, é jogada para uma sequência ou outra de ação, criadas para encher os olhos de um outro, mas na base de sua misancene se encontra um problema grave de construção de espaço e de dramaticidade em seus personagens.

Possivelmente um dos filmes mais esquecíveis do ano, porém, por seu conteúdo político socialmente tóxico e opressor, acho válido que seja mal falado, como está sendo.

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