“Toma vergonha na cara”

Por Gabriel Silveira


Jean Claude Bernardet é uma figura histórica dos cânones do cinema nacional que dispensa apresentações para os iniciados, mas, por desencargo de consciência, é sempre válido trazer à mesa certos louros do pensador, como, a autoria do roteiro de O caso dos irmãos Naves de Person e certos paideumas como Caminhos de Kiarostami e Cinema Brasileiro: Uma proposta para uma história. Como em qualquer indivíduo que fundamenta-se nos anais de nosso cinema (seja como realizador, crítico, produtor, ator, preservador, pensador, etc) a imagem de rockstar que paira pela imaginação de jovens estudantes e cinéfilos, perante a este minúsculo clube, acaba sendo levada à um estado de volatilidade na maleabilidade da persona (de clube) do indivíduo em questão, que tem sua integridade refém de qualquer atitude artística/política/pública majoritária.

Bernardet, consolidado como um grande ativista e pensador de nosso cinema, a ponto de dividir o palanque com figuras como Ismail Xavier e P. E. Salles Gomes, mostrava-se predisposto a tomar parte em outras atividades cênicas (que não de caneta) já na segunda metade do séc. XX. Trabalhando em obras como Orgia o homem que deu cria, suas performances e presença no cânone foram sempre levadas a sério como a de performers menores dentro da atmosfera de escárnio daquele cinema visceral que mais tentava definir-se como a mais séria ciranda cômica, onde todos eram bem vindos, mas para receber os louros oficiais (que não fossem um tapinha nas costas) você deveria ser Helena Ignez. Nunca foi uma novidade que Bernardet apostava suas fichas nos trampos performáticos, quanto aos limites do arcabouço de suas habilidades, a opinião maior gostava de tachá-lo com um grande selo de “ruim” em sua testa. Na USP, por conta de sua presença crítica dentro da instituição (que poderia ser desinibida e despudorada), alunos assumiam uma tradição vingativa onde davam papéis á Jean em seus filmes com o único intuito de por-lo em um spotlight de humilhação, buscando uma “auto-sabotagem” do homem.

É deste preceito que a personagem de Bernardet vem se integrando com uma presença ainda maior na narrativa cênica da cena audiovisual brasileira. Estrelando em filmes de uma geração um tanto mais jovem que a sua (Cristiano Burlam, Taciano Valério, Eugênio Puppo Kiki Goifman e a dupla de diretores do filme objeto deste texto) Bernardet parecia declamar-se com tais iniciativas um ator em tempo integral. Alguns vieram cheios de fel em suas línguas prontos para arrematar a moral do homem,”É ridículo Bernardet deixar seu posto consagrado de intelectual e pensador e começar a bater o pé de ator, fica andando com essa galera mais jovem que gosta de fazer aqueles filmes esquisitos parecendo mais usufruir daquele ator ruim. Melhor fosse que voltasse a escrever.” Apesar de desgosto da leitura de uma frase como essa por si só, o filme de Pedro Marques e Claudia Priscilla destrincha, desnuda e desmonta toda esta persona pública de Bernardet para montar um personagem demasiadamente mais simpatético que os múltiplos Bernardets da fofoca cinematográfica.

O retrato da dupla mostra não o intelectual que paga de autor/ator mas dá brecha para o florescimento desta persona/dramatis personae reflexiva e intimista de um Bernardet que que põe-se em embate com as duas forças motrizes de seu folclore; a encenação e seu ego. Afogando-se em fitas magnéticas que transfiguram-se no caixão do passado que perece sem o apertar do Play, Bernardet encena seus oitenta anos de idade, seus impasses de identidade, sua nacionalidade que beira em momentos uma estado apátrida, sua sexualidade, a solidão em família, o suicídio e seu cinema. Um filme que queima e proclama-se serenamente, sem levantar a voz em momento algum, mesmo que cheio de razão. Queima porque prova e aponta o dedo na cara de todos os minions de fragilíssimos egos que sentem-se ameaçados com qualquer prova de Vontade e vitalidade, conflitando sua mediocridade que se perde neste discurso moralista velado que descobre-se na tentativa de atacar o ego alheio. Sem saber o que é o que é um corpo envelhecido vem ser axiomático querendo impor um dogma quase que fundamentalista, “Tu é velho, se aprunta, aja como um homem de sua idade, tá achando mesmo que você tem capacidade de conquistar isso a essa altura do campeonato? Toma vergonha na cara”.

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