Projeções em fábulas acordadas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017


Exibido como o filme de encerramento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, “Abaixo a Gravidade” preocupa-se muito mais com o conceito de seu discurso do que sua forma narrativa, imergindo o espectador em uma desfragmentada viagem de tempos não lineares. Dirigido pelo baiano Edgar Navarro (de “SuperOutro”, “Eu Me Lembro”, e que foi ator em “Tropykaos”, de Daniel Lisboa), o longa-metragem é propositalmente amador para construir uma intimidade sinestesia de organicidade popular.

“Abaixo a Gravidade” é uma fábula temporal. Uma ficção científica de viés existencialista. Um conceito utópico, que se preocupa muito mais com a substância que a forma de apresentação. Na sessão, antes de seu início, o diretor “pediu paciência, porque velho fica chato”. Sim, há um predominante tom ingênuo e uma inocência perdida na construção de sua narrativa.

É cinema direto. Nu e cru. Que aproveita a urgência cotidiana do acontecer a fim de criar genuínos instantes, como a chuva, o desmaio e o acordar desorientado com teatral encenação. É um filme de micro-ações, de resgatar a simplicidade da vida. Dos sentimentos, sabedorias e suas consequências. Quase em videoclipe, nós assistimos a fragmentos de luz, mantra indiano, um cachorro livre na água, e ou um improviso das imagens em uma feira do “quiabo” e “brócolis”. Há um que de “Café Com Canela”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa.

Ao descobrir que sofre de uma grave doença, Bené (o ator Everaldo Pontes) entra num sério dilema, pensando se deve se tratar ou espera o desenvolvimento natural da patologia. Sua amizade (“amor à primeira vista”) com a jovem e descolada “asteroide” Letícia “alegria”, leva o homem que vive há anos isolado em uma comunidade rural no interior da Bahia (“que sempre foi um pouco Rodin”), de volta para a cidade grande e todo o seu caos.

“Abaixo a Gravidade” faz o que poucos filmes conseguem realizar, que é retirar o espectador de sua zona de conforto, tudo pela desconstrução do próprio cinema ao focar no seu fluxo descontínuo. A arte é integrante participativa e não mero instrumento de tradução “pêndulo”. “O mundo foi feito para os homens, mulher sofre demais”, lamenta-se.

Entre videntes, cantos em língua africana, sincretismo religioso (de curandeiros rezadeiros em “descarregada sessão de retirar a possessão”), elipses interioranas, o tempo passa, criando um estudo sobre a existência. Sobre permissões, despretensões e desapegos. “O que está acontecendo comigo?”, pergunta-se quando é percebido o “mijar sangue”. É uma aventura de “pirulitãos e pirulitinhos”. Uma parábola. Um épico. Uma trajetória bucólica a hostilidade da cidade grande. Que altera o “sexual, mas na sua idade não tem importância”.

O longa-metragem é também romanceado, muito parecido com uma estrutura de telenovela. É uma crítica de comportamento social dos “possuídos” (“endemoniado pela luxúria e pela intolerância”). “Caminhar ajuda”, interfere-se com títulos à moda de um cinema mudo. Assim, vaga sem rumo e perspectiva, quase um contemplativo e errante “Forrest Gump” abrasileirado, inserindo ao longo de toda trama referências políticas a ACM e a Cultura “ao alcance de todos”.

“Abaixo a Gravidade” despretensiosamente aborda sub-temas com um que de Harold Pinter, só que bem mais explícito (pela música dramática em uma igreja, por exemplo, cujo som conduz a mudança), e principalmente quando questiona ao “bater boca” com o mendigo (“tenho pavor de gente”) e quando o que se ouve é o próprio monólogo dito em desespero catártico. Do “pobre versus o muito rico”. “A miséria é o protagonista”, diz-se.

Há tudo e mais um pouco, pululando lucubrações humanistas e humanizadas. “O exu é aquele que fez o erro vira certo e o inverso”, ensina. Sim, todo discurso é crítico, poroso, coloquial e popular, tornando-se uma poética plataforma politicamente correta contra homofobia, machismo, hipocrisia e usando a caricatura para lidar com a caricatura. Sem esquecer a “união com os EUA – terráqueos, vendei-os!”. “Myself é o peso do ego”, diz com filosofia terapêutica, com “remédios mansos”, “sexo angelical”, “escatologia capitalista”. É um filme sobre escolhas. “A cidade destrói o ser humano” e “O amor?”, “Existe”, “E quem disser que não existe?”, “É triste”. “Ser ou não ser gay?”, olha para a câmera.

“Abaixo a Gravidade” usa e abusa de referências cinéfilas. “E.T – O Extraterrestre”, de Steve Spielberg; universo de Federico Fellini; “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick; Glauber Rocha; “Beleza Americana”, de Sam Mendes. E também dos sonhos. Projeções de cada um de nós, como o de “voar é com os pássaros”. É a “odisseia do mundo”, à moda de “Mãe!”, de Darren Aronofsky, e um que de “Psico Party” em “Caim”, de José Saramago, por passar “pelas desgraças e devassidões do mundo”. É duro, cru, cruel, provocando a ira de Deus. É uma obra que não tem medo da morte, de libertar o choro ao riso. Com pesadelos e alucinações. Não, não é um filme sobre morte. É simplesmente sobre a aceitação da própria vida.

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