Cinema “Novo” Argentino

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2018


Ao início da projeção do longa da Laura Citarella e Verónica Llinás, via-se uma proposta de animalização do ser humano, que é parte da proposta do filme. Uma câmera quase predatória acompanha a protagonista nos primeiros minutos. Mas isso já foi feito, e melhor. Explicar a sinopse deste projeto pode acabar sendo uma tarefa insólita, por isso irei me focar apenas na experiência que tive com o longa.

Existe uma proposta muito interessante de alguns pensamentos sociais e antropólogos que defendem uma teoria onde a sociedade limita o indivíduo e o força a lutar contra todos seus instintos mais primitivos. Isso, é claro, vê-se até mesmo no pensamento ideológico, onde um grupo de pessoas se privam dessa limitação. Este não é necessariamente o tema principal do filme, mas sim uma espécie de pano de fundo. Pois, o que vemos em “A mulher dos Cachorros”, é um profundo estudo de personagem, de uma mulher que vive com seus doze cachorros em uma situação miserável, onde ela é socialmente reclusa. Uma das coisas interessantes aqui, é a forma como a Laura e Verónica estrutura a narrativa de uma maneira quase documental, onde são feitas reflexões a partir das imagens e das ações da personagem. Esse exercício de observação é realizado com bastante preciosismo pelas diretoras, que compõe longos planos, para que possamos nos aproximar da protagonista.

Uma das características mais marcantes, sem dúvida, é o foco inconstante que é imposto na direção, o que torna interessante a experiência, já que vemos uma mulher, em uma situação limítrofe, à beira de um colapso. Então esta inconstância contribui para a narrativa, à medida que esta possui um progresso bastante cadenciado. Este ritmo da história, que possui uma construção bastante lenta, prejudica um pouco o longa, pois, torna-se demasiadamente arrastado para o público, porém, é completamente compreensível a escolha deste tipo de estrutura, ainda mais tratando-se de uma personagem com uma imobilidade social gravíssima.

A atuação da Verónica Llinás, orgânica e veroz, carrega o filme com bastante fluidez roubando a cena até mesmo em paisagens estonteantes. Inclusive, o plano final é absolutamente deslumbrante. Perdão os adjetivos mas não é possível escrever de outra forma. Enquanto vemos ela se recusando a receber tratamento médico, compreendemos que sua natureza não permite interações extra corpóreas. Sempre evitando o contato físico, a protagonista caminha em cena como uma espécie de animal abandonado que não encontrou na humanidade uma esperança plausível para a própria existência. E quando parece ter enxergado uma reclusão social que parece abraçar o subdesenvolvimento e, aparentemente se encanta por ter encontrado pessoas que se aproximar socialmente dela, compreende que para que estas relações sejam construídas é necessário o convívio em sociedade, ainda que de forma caótica, o que ela, não possui, seja por opressão da própria comunidade ou por uma opção de isolamento.

O fato da personagem não falar, tornam diversas interpretações bastante subjetivas, logo, é um filme que não irá agradar a todos, tanto o público, quanto cinéfilos. Mas é impossível não sentir a dor que ela sente, uma dor que está em um campo estético e imagético, que não possamos ver nem imaginar, mas sentir. E se graficamente exibe-se algo que justifique seus sentimentos diante do mundo e de si, não fica claro se a natureza que a compõe entende a própria situação limítrofe que se encontra. Pois, há uma questão básica de ilusão diante do próprio contrato social que selamos. E ela não possui nem mesmo a silhueta dessa composição individual, pois, divide seu espaço com os cachorros e passa o tempo inteiro sem se relacionar de forma direta com seres humanos.

Ao final da projeção, o espectador vai perceber algumas brincadeiras formais, porém, algumas noções mais narrativas, como a dignidade são exploradas, mas não até às últimas consequências, o que João Pedro Rodrigues faz em “O fantasma”. O problema final de “A Mulher dos Cachorros” não é o que mostra, mas sim o que não mostra. E esse sentimento de que está faltando algo mais, foi quase unânime.

Me parece que a “El Pampero Cine” não é exatamente uma produtora que busca a vanguarda de nenhuma maneira, mas sim, uma espécie de circuito paralelo ao comercial convencional.

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