Tonacci sendo homenageado no Cine BH

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2018


Há um certo tempo atrás, ocorreram, na Cinemateca do MAM no Rio, diversas aulas sobre o “Cinema Marginal”, ao longo de uma semana mais ou menos, fomos bombardeados de informações sobre os cineastas do período e ocorreram exibições de diversos filmes. O primeiro a ser exibido foi “Hitler 3º Mundo”, do Agrippino de Paula, que deixou uma grande parte boquiaberta com o nível de anarquia que o longa possuía, era mais caótico que tudo que já havíamos visto. E assim, após algumas projeções e meses de absorção, dei início, à minha caminhada através desse cinema, e claro, um dia assisti ao “Blábláblá”, do Andrea Tonacci.

Reassistindo aqui na 12ª Mostra Cine BH, é impressionante o vigor alucinado que há por trás de tudo isso. Uma revolta, obviamente, antiga mas que foi impulsionada pelo início daquele terrível período pós-golpe. Especificamente, “Blábláblá” foi lançado em 1968, ano do AI-5 e retratava, e retrata, com uma precisão cirúrgica um pensamento decadentista apocalíptico que se via por parte dos militares. Essa revigoração de um pensamento quase monárquico de intenção da perpetuação, assídua e pulso firme, no poder desencadeou uma série de medidas fascistas por parte dos militares, que levaram a repressão antecipada, uma espécie de caçada às bruxas se iniciou na Inquisição Militar pelo Orgulho Do Poder Branco Misógino Homofóbico Semi-Nazista. Onde as bruxas gritavam Marx e o correto era o não-pensamento. Certa vez em uma conversa, Rosemberg revelou que queria ter feito filosofia, mas acabou desistindo por causa do golpe, o que mostra o desespero dos intelectuais em uma situação limítrofe, catastrófica e desesperançosa.

Tonacci constrói em seus 26 minutos, uma tomada ácida e próxima ao “Olho por Olho”, mas que vai além em sua construção de linguagem cinematográfica. Aqui ele compreende parte de sua estrutura discursiva com elementos próprios do rádio, que era o veículo mais popular no momento, pois, a concretização da TV para o povo brasileiro, se solidifica apenas no início de 70. Então, numa atuação monstruosa de Paulo Gracindo, uma opressão se instala na tela e vemos um ditador cuspir sua raiva e suas frustrações direto para o microfone em um comunicado nacional, onde ele esclarece que está ali apenas pelo poder e que fará de tudo para se manter nele, isso inclui, o uso da violência. Argumentando que há, em movimento, muitas forças do caos e da discórdia, ele se sente obrigado a abusar deste uso da violência para manter a “ordem”.

O diretor propõe um jogo bastante singular com o espectador, uma montagem frenética que nos mostra o ditador, um “insurgente” interpretado pelo Nelson Xavier e filmagens do período histórico, não apenas na repressão militar, mas de ações bélicas em geral. E isto constrói uma das experiências mais nauseantes e empolgantes que um brasileiro pode ter no cinema. Este paradoxo gerado pela obra, só é possível nas mãos de uma pessoa completamente consciente daquilo que está fazendo. E tendo em mente, sempre, que não se trata apenas de um filme, mas de um manifesto contra a cultura do subdesenvolvimento e da aceitação popular às mortes e torturas que aconteciam no momento. O que seria potencializado posteriormente com “Bang, Bang”.

A montagem intelectual que se arquiteta na tela, é fruto da ideia de montagem de conflito do Eisenstein, que aqui é elevada a interpretação literal, seja por composição de plano, seja por texto mesmo, decifrando e fragmentando os pensamentos gerais em ações frases diretas e com um cunho popular denso. Quando o ditador diz: “Eu não vim trazer a guerra, mas sim a Paz” e no plano seguinte vemos o revolucionário dizer: “Eu não vim trazer a paz, mas a Guerra”. Compreendemos nitidamente uma concepção de mártires, terceiro mundistas, quase deificados pelo argumento, que sujeitam suas ideologias a uma caráter mais imediatista, de reação clara ao outro.

Em um momento de bipolarização sistêmica e quase sintomática, o festival ressuscitar essa memória a partir do “Blábláblá” é um acerto tremendo, isso porque 50 anos depois, estamos revivendo as memórias doídas e os fantasmas do passado, breve, mas que não cessam, nos assombram novamente, se impregnando no Brasil como um câncer, o retrocesso ideológico e social fica cada vez mais evidente quando membros da família de Bragança, são ovacionados por uma legião de pessoas no outeiro da Glória. É o fim? Como o próprio Ney Matogrosso explicou: “Tudo passa”, mas a apreensão estará presente até o término das eleições.

Verborrágico, ácido e irônico Tonacci realizou uma das maiores obras do Cinema Brasileiro, com requintes de Buñuel em “A Idade do Ouro”, mas original em sua proposta e atualíssimo, ainda que meio século após sua exibição.

Ps: Vale dizer que Cristina Amaral estava presente na sessão.

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