Fetichismo do subdesenvolvimento

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2018


Dividindo a sessão com “Blábláblá” do Tonacci, “Agarrando Pueblo – Vampiros da Miséria”, retrata uma fetichização da miséria por parte de diversos setores. Obviamente, o primeiro que pensamos são os estrangeiros, no caso deste curta, os alemães, que são utilizados como uma nervo narrativo, pois, na ficção eles encomendaram um filme sobre a pobreza na Colômbia. O filme do Ospina e do Mayolo, possui uma proposta híbrida, onde se concentram forças do campo documental, mas sempre trabalhando a ficção como um elemento narrativo. Isso porque o enredo básico se resume a um eixo, onde dois personagens filmam a miséria de forma vampiresca e predatória, pedindo aos moradores de rua chacoalhar a caneca da esmola, filmando sem pudor uma mãe e uma filha na rua, e assim em diante.

Existem dois tipos de imagem no filme, uma produzida no campo da ficção, sendo um falso-documentário e outra de cunho documental formalmente falando, mas que estruturalmente se mantém como ficção. Essa segunda, nada mais é do que a imagem da câmera utilizada pelos personagens em cena, sendo esta, colorida. A crítica direta às práticas de fetichização do subdesenvolvimento e do terceiro mundo, consegue ganhar outras dimensões ao compreendermos que todas aquelas imagens são geradas por colombianos contratados, que é a maior prova que a indústria opressora do imperialismo midiático venceu, pois, os alemães nem precisaram ter vindo até a América Latina para realizar este curta metragem.

A proposta de misancene dos diretores é um flerte com o cinema direto, onde vemos microfone vazando e o improviso é parte do processo criativo, pois, quando se filma algo que não se tem controle, como um documentário, e não se pede nem autorização para filmar, teoricamente, acontecem diversas coisas inusitadas ao longo da feitura fílmica. O que é divertido no curta, é que existe um bom humor, ainda que extremamente ácido, à tudo que está acontecendo, pois desta maneira, o ritmo se mantém sempre ágil, assim como a atuação do Mayolo, que faz o diretor em cena. E as diversas soluções que eles arranjam afim que se consiga filmar aquilo que eles desejam, são cada vez mais absurdas e ofensivas. Chegando em um determinado momento eles contratam uma família colombiana para que eles finjam ser miseráveis, além de levá-los a uma casa aleatória na rua, apenas porque a locação era ideal para o tipo de filme que eles estavam realizando.

Toda essa movimentação política que é proporcionada pelos diretores possui um esquema bastante simples, ser cada vez mais incisivo e incômodo ao público latino. Isto porque este curta não possui um terço do impacto para os europeus, pelo menos não do ponto de vista temático. Assume-se, aqui, uma aversão completa aos modelos europeus da linguagem cinematográfica, mas utilizam dos artifícios, leia-se estereótipos, culturais como gatilhos para se estruturar os acontecimentos na tela. Não à toa, vemos os personagens procurando mendigos loucos, prostitutas e qualquer tipo de “anomalia social” que eles podem encontrar. O desfecho proposto lembra bastante parte de “Jardim das Espumas” do Rosemberg, pelo caráter informal, semi-improvisado, onde os realizadores se expõem de maneira mais direta. A construção do “ato final”, reconhecido no curta como “cena final”, como mais uma questão de intertextualidade e metalinguagem proposta pelos diretores, é completamente esquizofrênica. Vemos esta família falseando serem miseráveis, ao mesmo tempo que acompanhamos os realizadores buscando os detalhes nesta casa aleatória que confirmem a história que eles haviam arquitetado para aquela família, onde o diretor diz: “Filma esses detalhes aqui” e o câmera responde “Agora eu vou fazer um geral”. Para que se possa compreender este nível de estetização da pobreza , é necessário que exista a cultura terceiro mundista nos olhos de quem vê, se não ficará algo turvo e de difícil penetração.

Quando se assume uma terceira camada sobre aquele filme, é onde se compreende a verdadeira intenção de Ospina e Mayolo, que não era apenas transgredir na linguagem e denunciar essa prática tão comum nos países subdesenvolvidos, mas também, refletir sobre o próprio ato de se realizar cinema em um país como aquele, onde apontar a câmera etc. São decisões políticas, que tornam-se éticas, pela temática que irá se assumir diante do mundo.

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