O cinema está aí para a transgressão

Por Vitor Velloso


No segundo dia da Mostra Cine BH a programação foi variada, mas a maioria se concentrou em palestras e encontros do Brasil CineMundi. Iniciei minha programação com o debate sobre o filme da Abertura, “Sol, Alegria”, com a presença dos diretores Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira, e do cantor e ator Ney Matogrosso. Durante o debate as pessoas fizeram perguntas, assim como o mediador e curador, Marcelo Miranda, e um dos temas levantados foi essa anarquia que o longa levantava. Tavinho explicou que essa anarquia ocorreu, de certa maneira, no set de filmagem. Ele explicou que diversas cenas no filme, não foram dirigidas por ele, o que explica os diferentes estilos propostos na verborragia impressa na tela.

Em um dos momentos da conversa, Ney, levantou uma questão bastante relevante na cena do convento, o ator diz que sente a construção toda do momento, como uma cena de um filme do Pasolini. A resposta de Tavinho foi: “Obrigado”. O humor foi parte central desta roda que suscitou a discussão política sobre o momento atual do Brasil, sempre mostrando como as pessoas estão temerosas às eleições presidenciais. Ney foi um realista otimista “Tudo passa”. Uma pequena discussão sobre eutanásia foi levantada a partir uma cena do filme, onde houve argumentações dos dois lados, mas tudo para o lado pessoal.

“A transgressão sempre me interessou”

Ney demonstra profundo interesse na arte cinematográfica como uma forma livre de transgredir, seja na estética ou no corpo, e confessou ter recebido um convite recentemente que recusou, pois, teria que ser enquadrado em padrões que não aprova. Ao fim do debate, consegui fazer um vídeo com o Tavinho e o Ney, contando um pouco de como foi essa experiência conjunta. E realizei uma convocação ao “Sol, Alegria” com a atriz e diretora, Mariah Teixeira.

Em seguida, começou a masterclass com a Laura Citarella com a mediação do Francis Vogner, não foi exatamente uma aula, foi uma extensão do discurso da Abertura, porém, com o foco maior na diretora. Francis tornou a falar que não trata-se de uma evocação ao cinema latino da década de 60 e 70, mas sim de encontrar o lugar deste cinema nos tempos atuais nos festivais internacionais. E completou que a Argentina é o país com maior penetração no mercado europeu. Além de introduzir uma das problemáticas do encontro: Os problemas enfrentados nos modos de produção cinematográficas na América Latina.

Laura começou sua fala em seguida, explicando que a Pampero Cine, se iniciou com jovens cineastas, amigos, que desejavam fazer cinema acima de tudo. E que por esse motivo, não poderia se encaixar no mercado industrial vigente, pois, os desejos do grupo eram de uma autoria mais livre e que propunha uma reforma formal estética mais intensa. E complementou que por esta proposta a distribuição que é, em geral, realizada por eles, não possui muito alcance, pois, são filmes que apesar de não serem herméticos e de fácil compreensão, acabam não chegando ao grande público. Isto é fácil de se explicar, não é uma questão de enredo que leva o povo ao cinema, mas sim sua temática e narrativa. E quanto a isto, é muito fora do padrão mercadológico. Claro que isto é necessário para movimentar a sétima arte, mas é um ônus do ofício. Porém, revelou, que “La Flor”, a epopéia de 14 horas do diretor Mariano LLinás, despertou grande interesse em diversos distribuidores franceses. O que além de surpreendente, dado a duração do projeto, mostra como o longa impactou os europeus. O filme terá crítica completa no site.

Laura explicou que todos da Pampero, possuem trabalhos diversos, não apenas na produtora, pois, esta não dá retorno financeiro a eles. Então todos tem outras funções e dão muitas aulas. O que se caracteriza por uma guerrilha de produção bastante palpável e admirável. Além de explicar que é muito incomum um diretor, ou diretora, conseguir o êxito formal e econômico, pois, em geral, as duas coisas andam separadas. Como no caso deles. Um debate levantado por uma das pessoas, da platéia, que questionou sobre algumas problemáticas de distribuição. A diretora salientou que existe para além da exibição no cinema, um outro debate, a forma como se produz e distribui o longa hoje em dia, até mesmo sua exibição na TV. Foi taxativa quanto a possibilidade de “La Flor” ser exibida como uma minissérie, nunca, pois, ele não foi pensado neste formato.

E vai além, comenta que uma das chaves para diversos problemas na produção é uma relação harmônica entre produtor e diretor, pois, além de horizontalizar mais as funções e hierarquizar menos, facilita diversas discussões estéticas quanto ao filme que está em pauta. Sendo assim, uma função de “Produtor Executivo”, ao qual ela se refere. Em determinado momento, deixou claro seu pensamento sobre diferentes formas de se experimentar formas de produção novas, pois, desta maneira, poderemos ver a diferença diretamente na tela. Mas uma das teclas que ela insistiu em afirmar, é que em uma produção quase sem dinheiro e autoral, é impossível fragmentar as funções da maneira como se deseja, o que acontece em todos os lugares do mundo, onde possui uma seleção mínima de autores de cinema. Comentou inclusive uma coisa que eu digo com extrema constância aqui no site: Existe uma indústria de cinema autoral. Existe uma fórmula de se conquistar o público europeu “Artsy”, e fazer a média com a crítica. Inclusive, introduziria “A mulher dos cachorros” neste formato, mas isto fica para daqui a pouco quando escreverei uma crítica sobre o longa da Laura.

Esclareceu seu pensamento sobre Cannes atualmente: Conservador. O que é absolutamente nítido, após darem à palma de ouro 2017, ao “The Square”, o reacionarismo pairou o ar do festival. Além, claro, de uma demência generalizada causada pelo debate que o longa propõe, que não chega nem a superfície. Para finalizar, comentou sobre direção e co-direção no longa “A mulher dos Cachorros”, onde dividiu a direção com a Verónica Llinás, e afirmou ser o debate da moda na Pampero, saber qual o limite dessas criações para que se assine a direção de um filme. O que, mostra, uma preocupação não apenas com o ego individual, mas também, com a fácil compreensão da produção, a fim se obter um pragmatismo maior nestes processos. Pois, sem dúvida, pragmatismo é o caminho para se obter o sucesso nos projetos.

Logo após a conversa, revi as duas obras-primas: Blábláblá, Andrea Tonacci e Agarrando Pueblo, do Luis Ospina e Carlos Mayolo, que escreverei ainda hoje sobre os dois. E assisti “A mulher dos cachorros” da Laura Citarella, que também escreverei ainda hoje.

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