Uma escuridão rasa e fria

Por Fabricio Duque


Talvez uma das mais difíceis tarefas e desafios do mundo presente e terráqueo, que é espelhado na arte cinematográfica, ou vice-versa, seja transpor a exata ideia ao resultado final. Os roteiristas e diretores pensam no tema, argumentam conceitos e constroem a narrativa. Isso é lógico. Mas nem sempre dá certo. A tradução às vezes pode se perder no caminho abstrato justamente pela forma objetivada.

“Fica Mais Escuro Ao Amanhecer” é um desses exemplos. Tudo porque fragiliza com uma excessiva passionalidade, acreditando que o público é cúmplice o suficiente para conseguir acompanhar a estrutura fragmentada, de digressões não lineares, em uma trama de vivências etéreas.

É um filme quebra-cabeça, em que cada um dos espectadores precisa montar as peças, Contudo, algumas estão faltando e assim, as pontas soltas são embasadas no campo freudiano dos sonhos e das memórias. Em espanhol inclusive. Seu protagonista mergulha no próprio tempo, lidando com a culpa, luto e com os fantasmas ainda presentes do passado.

“Fica Mais Escuro Ao Amanhecer” desenvolve-se principalmente por sua câmera subjetiva e comparativa a um instrumento maquinário a fim de distanciar a sensação de epifania que ronda e que ao mesmo destrói, liberta e cria a redenção do seguir adiante. “A memória é diferente: ficamos tão presos a sua ordem e seu tempo”, narra-se.

“Uma forma como organiza as coisas, uma imagem atrás da outra”, complementa em um preâmbulo (parecido como uma abertura prévia de um seriado HBO, por exemplo) que resume o que acontecerá ao longo da história (um spoiler consentido e proposital para talvez prender a atenção e a curiosidade de quem assiste), à moda estrutural de Terrence Malick, mais em “De Canção em Canção” que “A Árvore da Vida”.

Iran é um rapaz que vive em uma região extremamente afetada pelas mudanças climáticas causadas pelo ser humano. É certo que a população caminha para assistir ao último por do sol. Após uma grave tragédia familiar, ele irá lutar contra a depressão aguda que tem acometido toda a população. “Não temos nenhum poder sobre nada disso: a maior catástrofe da natureza é a perda”, diz-se, com notas de uma música a La irlandesa.

“Fica Mais Escuro Ao Amanhecer”, dirigido por Thiago Luciano (de “Um Dia de Ontem” e ator da novela “Alma Gêmea”) é um filme que busca a própria desconstrução quando não encontra medidas e lugar, ora abordando com uma caricata excentricidade, ora com uma distante inferência do que os silêncios podem significar. Sem conexão e cortes bruscos. É também metafórico ao incluir personagens em uma fábrica de gelo no ambiente sulista, que mais faz frio que calor. É a quentura de lá de dentro em paradoxo com o frio hostil de lá de fora. Sem esquecer a “castanha glaceada”.

É um longa-metragem que perde as peças. Que não se preocupa em montar a estrutura narrativa que tem medo do escuro, deixando a carga emocional suavizada demais, solto demais, improvisado demais, introspectivo demais. Principalmente pela trilha sonora que destoa o tom, gerando um facilitador amedrontado. Não se quer o sofrer. E sim uma versão teatralizada e encenada da dor, com suas alegorias, danças temáticas (festa estranha com gente esquisita), fantasias à moda de um trabalho escolar. Com fades demais.

Aos poucos, nós entendemos. A loucura paranoia adquire máscaras de gás, a quente proteção em um deturpada esquizofrenia gélida e nevada. É sobre a sensibilidade ao “nosso campo magnético, igual ao nosso relógio biológico, que influencia o comportamento das pessoas”. O núcleo surreal vem de Caco Ciocler, o chefe da fábrica. Ele faz alongamento com seus funcionários, explica horas extras de uma “onda de calor” e se aprisiona da “invasão”. Tudo rápido demais, imediatista demais, com pressa demais. Não há sutilezas. “o homem usará qq artificio para evitar o verdadeiro trabalho de pensar”, lê-se na parede.

“Fica Mais Escuro Ao Amanhecer”, como foi dito, é uma fábula crítica ecológica sobre a mudança climática, com seus discursos estranhos na televisão, de um iminente apocalipse anunciado. É um filme sobre o tempo por um intimista estudo de caso, perceptível pelo corte do cabelo do protagonista, interpretado pelo próprio diretor, um bom ator centrado, preciso, silencioso, econômico e que passa com poucas palavras o que precisa transpassar, atravessando uma catástrofe de altos e baixos, de humores descontrolados, de temperaturas discordantes e sem ritmo. É um filme de instantes videoclipes de dentro para fora. Que tenta filmar o interno com uma afobada urgência em curar as dores de seu personagem principal. No final, percebemos que Caco Ciocler é também o produtor executivo. E a pergunta vem à tona: Por que?”. “O que fez um ator deste porte acreditar neste projeto”. Retóricas, retóricas e retóricas.

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