Encontro de Titãs

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


Quão gratificante é poder acompanhar a carreira de um cineasta que consegue manter a ousadia investigativa e a pluralidade de fontes narrativas como um espírito antigo e novo ao mesmo tempo que não consegue se conter isoladamente encarnado em um único corpo. Não bastasse isto, Leo Tabosa e seu novo filme “Nova Iorque” ainda consegue reunir dois titãs dentro de um mesmo projeto, as atrizes consagradas Hermila Guedes (do cult máximo “O Céu de Suely” de Karim Aïnouz) e Marcélia Cartaxo (do clássico mor “A Hora da Estrela” de Suzana Amaral), de modo a se fundirem num empreendimento maior do que a mera soma de suas partes.

“Nova Iorque”, novo filme em curta-metragem de Leo Tabosa, é o primeiro trabalho do cineasta em ficção, após duas obras em documentário de sua trilogia do desejo, contendo questionamentos sobre saudades e segredos, os premiados “Tubarão” e “Baunilha”. Ou seja, Tabosa foi procurar na ficção o que talvez fosse uma peça que precisava encontrar em seu quebra-cabeça depois de dois documentários de extrema complexidade, onde precisava lidar com a busca pela identidade do sujeito e personagem de seus filmes. Em “Tubarão”, o documentado teve de ser substituído fisicamente de última hora, por não querer aparecer diante da câmera, apesar de a voz e áudio pertencerem ao indivíduo original; Já em “Baunilha”, Leo teve de lidar com alguém que podia aparecer presencialmente no filme, mas não podia revelar sua identidade, e precisava permanecer incógnito, mesmo que o resto de seu corpo e dos demais personagens estivesse à total disposição, com toques de erotismo psicanalítico de carências e prazeres modernos e urbanos através do BDSM.

Eis que “Nova Iorque” não poderia ser menos ousado ou arriscado do que seus projetos anteriores, até para poder atrair a atenção do diretor. Até mesmo numa ficção, Leo encontrou uma forma de permanecer verdadeiro a si mesmo e tangenciar sua linguagem documental e visceral de alguma forma, mergulhando em memórias infanto-juvenis de descoberta da própria identidade social, de seus anseios e desejos íntimos, de sua interação e atração com as outras crianças da mesma idade. Para encarnar a sai mesmo em versão imberbe, confiou na revelação Juan Calado e o cercou logo de duas deusas do cinema brasileiro, Hermila Guedes e Marcélia Cartaxo, respectivamente como como a professora e a madrasta do menino.

E, da mesma forma com que foi gravado nas comunidades de Santana de Cima e de Barreiros, distrito de Serra Talhada, no interior de Pernambuco, suas personagens são duras e secas como a realidade pouco convidativa do entorno narrativo, cercados pela aparente falta de perspectiva. Sonhar é proibido até o limite de que sonhar demais é se decepcionar com a frustração do que não iria poder alcançar. Mas é daí que advém o nome do filme, “Nova Iorque”, e também de onde vem o tom lúdico que alivia a esterilidade.

A professora interpretada por Hermila Guedes talvez seja um dos papéis mais difíceis e ingratos que um roteiro pudesse aparentar, mas é encarnado com tal carisma que mesmo se tratando de uma jovem mulher machucada pelas decepções da vida e de sonhos que já deram errado, cercada por alunos que se ela der intimidade demais irão querer o braço inteiro e não apenas a mão, consegue criar empatia não apenas com o protagonista, mas com a plateia atônita. A madrasta do mesmo menino (Juan Calado), na pele de Marcélia Cartaxo, consegue ser ainda mais rígida e oculta por trás da couraça protetora, e menos tratável ainda. Neste meio árido, o personagem vai descobrindo sua interação diferente com as outras crianças, vai sofrendo bullying, molhando a cama ao acordar no meio da madrugada…mas… Mas… ainda pensa em sonhar, mesmo que ninguém lhe dê um exemplo positivo ao redor, desde que sua mãe partiu e não lhe deixou nenhum bom exemplo materno.

Então surge possivelmente o maior diferencial, o risco que poderia botar toda a empreitada a perder, ao lembrarmos o título “Nova Iorque” e a possibilidade de alienar a brasilidade territorial do regionalismo contido no agreste de Pernambuco, mas é o sonho quem consegue juntar os espaços tão distantes sem desnaturalizar nenhum dos dois. É um boneco, uma marionete de um gatinho, puxada por cordas em pleno ar na tela, de fora pelo extracampo, como uma solução corporal extracorpórea, como em “Tubarão” e “Baunilha”, mas que agora liga e cola tudo através da subjetividade abstrata. O gato alude ao musical da Broadway “Cats”, de onde o menino tirou a música que entoa no filme inteiro, “Memory”. É este gatinho que une a possibilidade de redenção e de rito de passagem para todos os personagens, a esgarçar e romper o tecido da realidade para o delírio e de volta para o real numa queda e pancada de bunda no chão, até que a dor possa trazer o que há em comum entre os dois.

E ainda há um plus, sem spoiler: os créditos finais do filme em desenhos animados quadro a quadro pelo movimento singelo entre os nomes creditados, dando vida aos desejos e anseios e angústias do menino de forma tão sincera, demonstram como a animação é um recurso útil e necessário hoje em dia para encapsular aquele momento de eterno que surge tão espontaneamente. É o registro infinito da impressão que fica do real, potencializando a imaginação de quem vê. O toque que faltava para eternizar a obra e sua história para a memória coletiva, para além das lembranças pessoais e íntimas de seu realizador que agora todos carregamos junto conosco.

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