Primeira Saudade

Por Gabriel Silveira


A ausência, o gelo que há no espaço entre dois corpos. No silêncio da noite o homem toma conta para que tudo dê certo. O que há dentro do pequeno é o amor que emagrece toda vez que se depara com a incompreensão do dever. A admiração que se reporta na homenagem não ofertada.

“Takara – A noite em que nadei”, de Kohei Igarashi e Damien Manivel, transpõe o inverno da saudade. A narrativa primária segue a jornada do menino (Takara Kogawa), filho de um mercador de uma peixaria, ao encontro de seu pai, a propósito de entregar um desenho que fez de uma gama de animais marinhos em homenagem àquele. A decupagem de Igarashi e Manivel estabelece desde seus primeiros planos uma relação de intimidade e harmonia com o ritmo de Takara. No princípio, o texto acompanha o silêncio da madrugada daquele lar, a luz quente e suave das lamparinas, o estalar das unhas do cão a cada passo no assoalho, o conforto em um revestimento essencial de edredons que combatem, ao lado da luz vermelha do aquecedor, a força gélida da nevasca que acompanha aquilo que mais parece uma estação eterna daquele Japão. Cada plano estoico à la Ozu (tanto numa questão de permanência e quase autonomia do quadro quanto num equilíbrio composicional) permite que o drive narrativo do espectador corra solto pela ambiência melancólica e aconchegante daquele lar. Algo que por certo ponto pode até abrir espaço (em seus primeiros momentos) para uma leitura macabra daquela diegese, o silêncio daquela solitude de uma vida interiorana a deriva de tudo, aquela vida invernal que não tem nada mais que aquela noite profunda.

No segundo momento, da partida de Takara para o mundo exterior, a dupla consegue transfigurar aquela intimidade da encenação (que poderia desaguar numa estagnação) em uma externalização da persona infantil, ingênua e mansa que contamina a composição geral dos quadros e faz do próprio mundo material urbano aquilo que parece um playground seguro, teleológico, da caminhada do menino; quase como um tracejado de um livro infantil.

Até mesmo quando a narração propõe alguma situação de risco (que em grande parte são de minúsculas proporções, no entanto, gigantes para o pequeno) parece haver uma aura de proteção materna, paternal, quase que mística, oriunda da encenação. Como se essa grande pequena jornada da venturosa curiosidade fosse sempre vigiada por um espectador que sente-se no dever de proteger e agasalhar a criança, sempre de cabelos em pé numa tentativa de travessia de rua, agraciado por um alívio pelos dois primeiros frames do plano seguinte que afirmam a conclusão segura da passagem.

A protagonista acaba dependendo desta ausência da ameaça do esmo de um Japão interiorano para criar algo que vai além de qualquer obstáculo teleológico. Takara simplesmente divaga pela cidade atrás de seu pai, e a única coisa que se há a fazer é admirar como aquela personagem ultra-verossímil experiencia cada barreira e cada lição somada à experiência. É admirável o esforço da dupla Igarashi/Manivel no estabelecimento de um formalismo rítmico/temporal em sua diegese, vindo à mente a sequência onde Takara brinca de latir com dois cachorros e acaba assustando-os de uma maneira onde os bichos saltam no ar sincronicamente em espanto, pura magia dinâmica.

Acho até mesmo extraordinário como a jornada consegue sintetizar de uma maneira peculiar o extra corpóreo, o instintivo na saudade, essa nossa incapacidade de desperdiçar o tempo com aquilo que não existe ao lado do coração e essa força de vontade que a narrativa segura até o fim. Quando nos leva ao que seria um clímax de uma construção narrativa de verossimilhança lógica, um perigo majoritário se manifesta imbuído numa ambiguidade esquisita que, perante a passividade da atmosfera lúdica, afirma-se como uma força amiga que só mesmo é possível de se encontrar na fé mais pura dentro do espectro humano ou dentro de uma fantasia lúdica que concretiza aquele reino de uma terra que (gloriosamente) carece das piores tragédias

Com todo todo o intimismo de seu slow cinema “A noite em que nadei” acaba trazendo uma das lições de encenação mais singelas que assisti este ano. Um composição imaginária e dramática descarregada de dogmas, um pequeno conto que vai além de nossas idiossincráticas ditaduras moralistas

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