O Show Não Pode Parar

Por Fabricio Duque


Há muito as animações cinematográficas deixaram de ser meros exemplos infantis para se firmarem mais próximas do comportamento realista e comparativo às idiossincrasias do seres humanos. Seu roteiro é construído com humor-picardia espirituoso e livre de sensibilidades politicamente corretas, aceitando as próprias diferenças e as múltiplas possibilidades do existir.

“Sing – Quem Canta Seus Males Espanta”, dos criadores de “Meu Malvado Favorito”, é um deles ao parodiar o mundo contemporâneo da música pop e suas audições competitivas de um concurso de canto (e seus candidatos e músicos esperando começar o “trabalho”) à moda de “The Voice”, com um que do seriado “Glee”, visto que conta com mais de 80 canções de sucesso da década de quarenta até os dias atuais, entre Beyoncé, Lady Gaga, Seal, Van Halen e seu “Jump”.

Aqui nenhum personagem escapa do crivo crítico. O filme primeiro morde (e planta o questionamento) para depois assoprar (e fornecer a mensagem auto-ajuda de ser). As características, particulares, inerentes e ímpares, de cada um são humanizadas e tratadas como o que sempre devem ser: aparências. Uma imagem física. Nada mais.

É também sobre superação. Sobre lutar pelos sonhos a fim de realizá-los. Sobre não desistir nas primeiras dificuldades. Sobre transpassar os próprios medos, limites, bloqueios, auto-punições, boicotes e a falsa percepção da perfeição.

Há um que do universo sarcasticamente crível, surreal e verdadeiramente sem noção de Woody Allen em “Sing – Quem Canta Seus Males Espanta”, ainda que embale o espectador na fantasia, mundo este em que tudo é possível. Como o “frio na barriga que congela”, a crueldade da decisão de separar duplas já formadas por amizade e afinidade.

Um empolgado coala chamado Buster decide criar uma competição de canto para aumentar os rendimentos de seu antigo teatro. A disputa movimenta o mundo animal e promove a revelação de diversos talentos da cidade, todos de olho nos 15 minutos de fama e US$ 100 mil dólares de prêmio.

A animação, dirigida por Garth Jennings (de “O Guia dos Mochileiros da Galáxia”), conduz sua narrativa pelos bastidores de um espetáculo musical Broadway em versão animais, pela decadência de um produtor falido e pela câmera próxima perspectiva que acompanha com música de Katy Perry e ou de um “roqueiro punk” e ou de um “Emo”. Passando por “Call Me Maybe”, de Carly Rae Jepsen; “True Colors”, de Cyndi Lauper; John Legend; óperas; Gipsy Kings, e até mesmo “Garota de Ipanema”.

“Sing – Quem Canta Seus Males Espanta” é uma comédia de situações, em que o acaso define as próximas ações, reações, dramas e humores. É a oportunidade eclética do universo que “conspira para que o sucesso” aconteça a todos os gêneros. O longa-metragem também insere o realismo resignado de seres que mitigam a esperança e o otimismo e embarcam no conforto de suas desistências. “Parar de pensar e de sonhar e partir para outra”, “ensina”. Mas também discursa sobre o empoderamento “suíco”, meio Whoopi Goldberg.

É tudo sobre como realizar os “grandes” sonhos até as últimas consequências. Até sua glória. Nem que seja pelo artifício de “Missão Impossível”. Como em “O Rei do Show”, de Michael Gracey, e ou todos os outros filmes e seriados que versam sobre galgar o céu e encontrar a fama. Seus sonhadores não encontrarão apenas rosas e chances, mas um caminho com muito mais espinhos e com seres com controle, ego, que não estão nem aí e que farão de tudo para os tirar de cena. Mas o “quinteto japonês”nunca desiste. E em outros casos a família apoia incondicionalmente.

“Sing – Quem Canta Seus Males Espanta” é comportamental. Um estudo leve e animado destes animais como figuras humanas. Que almejam o “palácio de esplendor e magia”. E sofrem conflitos e os medos iminentes de que tudo irá ruir e ser destruído. É também sobre recomeçar. Dar a volta por cima. Acreditar novamente no poder do vencer. “Quando se chega no fundo do poço, só há uma saída: subir”, diz-se. Sim, é realista demais. Quase melancólico. Principalmente pela música “Hallelujah”, de Jeff Buckley.

É uma crítica a essa excessiva e destrutiva competição de ter que ser o melhor em tudo e provar que podem sem errar nunca. Como máquinas robôs. Mas quando a pressão baixa, cada um deles mostra seu talento no melhor estilo “American Idol”. “Não importa o estilo, cante”, finalizando com “My Way”, de Frank Sinatra (“Eu planejei cada caminho do mapa, Cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho, E mais, muito mais que isso, Eu o fiz do meu jeito”). É o primeiro trabalho de dublagem em animação do ator Taron Egerton. Um filme despretensioso que cumpre seu propósito. Divertir com qualidade e inteligência. Para crianças, animais, adultos, gregos, troianos, roqueiros e aos pop de plantão.

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