Vulgaridade pseudo brasileira…. De novo

Por Vitor Velloso


Ao terminar “Encantados”, o novo filme da Tizuka Yamazaki, algumas coisas podem passar na cabeça do espectador, porém, qualquer pessoa, irá perceber duas coisas: O longa é bobinho e a atuação do Thiago Martins é assustadora, não foi um elogio.

O filme conta a história de Zeneida (Carolina Oliveira), que passa a morar na ilha do Marajó com seus dez irmãos, e ao conhecer Antônio (Thiago Martins), se apaixona por seu mistério e passa a viver uma vida de romance proibido, enquanto busca uma explicação para ela se sentir diferente das pessoas da sua família. Dira Paes que está no projeto, interpreta Cotinha, empregada da família acredita que a garota possui algum tipo de ligação com forças da natureza.

A estética que Tizuka que está mais preocupada busca força na inocência da menina e na paisagem do local, sempre usando o misticismo como base da narrativa. Porém, a impressão que se tem é que a intenção de distribuição era a TV, isso porque, todas as texturas parecem ter passado por uma lavagem completa e a fotografia de Antonio Luiz Mendes, o mesmo de “Missão 115”, coincidência ou não, ambos os projetos possuem um acabamento que compromete, e muito, o resultado final. Uma breve análise dos planos concretizados pela diretora aqui, percebe-se uma intenção justa de se retratar uma cultura brasileira enterrada pelo imperialismo europeu, ainda assim, é impossível não perceber como os enquadramentos são pobres e as movimentações desajustadas.

Algumas tentativas de construção imagética são tão parte de um senso comum, que acabam soando, fetiche de um pseudo-altruísmo frágil, que potencializado pela atuação do nervo da atmosfera do filme, Thiago Martins, ridiculariza a imagem que tenta louvar e torna-se fútil e pretensioso. Infelizmente, pois, algumas ideias introduzidas aqui, poderiam ter sido melhores desenvolvidas, desenvolvendo alguns conceitos mais místicos seria possível atingir outros lugares. A montagem, que só atrapalha a atmosfera do filme, é hiper fragmentada, sendo incapaz de criar uma narrativa que possua um ritmo fluído e agradável.

O roteiro escrito por Victor Navas, é muito mais inocente do que deveria, ainda que a abordagem seja mais palpável para um público infanto-juvenil. Pois, a densidade daquilo que se aborda tanto do ponto de vista da complexidade do culto, quanto do próprio manifesto cultural que se desenha, é notória. E quando vemos o longa caminhar numa romantização fútil e estéril, de uma história com um potencial dramática bastante sólido, vemos uma das maiores fragilidades de todas, sua cadência em prol dos personagens. O tempo dos personagens em tela, teoricamente, é de acordo com a sua importância para a trama. Mas, se no roteiro isso parece funcionar de uma maneira pragmática, na tela, a impressão que se tem é que nada daquela proposta funciona, justamente, pela montagem e e atuação é impressa. E isto tudo é claro, deveria ter sido filtrado pela direção, mas, Tizuka, nunca foi conhecida por possuir obras relevantes, muito menos bem trabalhadas.

E ainda que existe um esforço imenso do público para esquecer todos os problemas e apenas apreciar uma história de aventura, tudo é um retalho de besteiras retiradas de longas norte-americanos sendo costurado de uma forma extremamente injusta. Esse amontoado de problemas que vão se esticando ao longo dos longuíssimos sessenta e poucos minutos, tornam-se uma bola de neve na tentativa de encerrar aquilo tudo. O desfecho que vemos é uma das piores coisas do ano, sem dúvida. Isso porque além de ser anti-original, é uma demonstração de preguiça, por parte de quem pensou aquilo tudo. Parece deselegante me referir a um longa com um orçamento tão caro, ao adjetivo dá preguiça, mas perdão, não dá para fugir disso. Mal finalizado, mal acabado, mal filmado, mal atuado, nada funciona. A história que é inspirada em eventos reais ainda conta com a aparição da Zeneida, verdadeira, em seus últimos segundos. E o que deveria ser uma homenagem, torna-se objeto de vergonha. Senti pena ao ver aquela mulher disposta à câmera, sem saber a obra que era feita em sua homenagem.

Não há muito o que defender em “Encantados”, ou quase nada, o pouco que nos resta são pequenos planos que possuem alguma beleza, seja pela paisagem ou por algum dos animais que aparecem, pois dos seres humanos que estão presentes, apenas, não. Não e não. É vulgar? Sim. Será que toquei na ferida de mais alguém? Seria uma pena ver a reação reacionária da vulgaridade cultural aqui exposta em um Brasil mal representado. Salve “Piripkura”, salve “Martírio”, salve “Iracema”.

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