Catarse construtiva

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


Catarse não é uma palavra simples de se explicar. E não estamos falando da “Catarse” que hoje em dia dá nome próprio a uma plataforma de investimento coletivo na internet, e sim a catarse substantivo simples, a sensação interna que nos arrepia a espinha e gera transformações de dentro para fora. Como explicar uma catarse? É necessário senti-la para saber, quando geralmente todos os fatores se reúnem de forma a congregar uma revolução de ideias transbordando em algo novo. Por isso essa palavrinha é tão lembrada quando se fala de cinema, pois filmes são sempre um meio por onde se pode alcançar tal nível de reflexão a ponto de maturar mudanças de perspectivas para nossa própria vida.

O filme “Nomes que Importam” da dupla Angela Donini e Muriel Alves é um destes filmes que alcançam algo ímpar: fazer com que as pessoas entrevistadas repassem uma catarse extremamente pessoal de forma genuína para terceiros; ao mesmo tempo consegue potencialmente gerar uma segunda catarse coletiva em reunir estas pessoas que passam a poder se fortalecer pelo conjunto; e, por fim, cria identificação para que o espectador participe desta sensação em comum, mesmo que parta de lugares completamente diversos do original.

O conceito do filme nasceu a partir do acompanhamento pelas diretoras do processo de conferências entre pessoas trans e travestis que haviam se reunido de todo o Brasil para poder traçar metas e políticas por seus direitos identitários e sociais. Sabemos que apesar de a causa LGBTQ em geral ter conseguido resultados positivos no país nestes últimos anos, assim como um reconhecimento maior na inserção cultural, de maneira inversamente proporcional ainda possuímos números recordes de homicídios motivados por puro preconceito ou intolerância às pessoas trans e travestis, além de todo um espectro de gêneros e sexualidades entre as nomeadas acima que a sociedade brasileira ainda não necessariamente reconhece. E ao filmar e registrar um bom material sobre o assunto, as diretoras não apenas envolveram as pessoas entrevistadas em sua equipe de filmagem, nas mais variadas funções, preocupando-se com a representatividade e a perpetuação dos registros pelas próprias, bem como começaram a traçar um fio condutor com que este material pudesse se tornar um filme e auxiliar com o poder das artes na mesma política retratada dentro da obra.

É o cinema ajudando a mudar a realidade em seu entorno, a alcançar plateias e empatia através da compreensão, e a conscientizar onde estas vozes talvez não conseguissem alcançar normalmente se não fosse a projeção da sétima arte. Durante a projeção do documentário em formato de curta-metragem, temos a sucessão de várias ativistas da causa retratada, politizadas e conscientes dos direitos que lhe emanam, como a política Indianare Sophia, Angela Leclery, Welluma Brown, Esther Morgannah, Jovanna Baby e Evelym Gutierrez. E, apesar do formato tradicional de entrevista em plano fixo e direto de seus corpos e rostos sentados diante da câmera, envoltos por uma parede preta, é da centralização de suas personalidades totalmente à vontade e com intimidade para relatar suas histórias em torno da eleição de seus nomes próprios que se encontra a força do filme.

Muitas destas histórias desvelam preconceitos barreiras aparentemente intransponíveis que elas tiveram de transpor para alcançar seus direitos, bem como para sentir que suas identidades sociais correspondiam com o que sentiam por dentro. Através destas superações somos nós também transformados em compreender melhor mesmo aquilo que possamos jamais ter tido de passar para alcançar nossas próprias identidades, que em geral nos são dadas em nossos privilégios hegemônicos silentes – e por “nós” este crítico inclui todos que estiverem lendo e que talvez não tenham sentido a identificação imediata com esta luta e vitória, mas que, após este filme, poderão encontrar um lugar em suas vidas onde podem ter tido problemas a vencer com suas famílias, amigos ou colegas de trabalho e onde podemos encontrar a empatia de nos colocar no lugar da outra pessoa e admirá-la por nossas diferenças que nos aproximam em democracia. Um belo trabalho das diretoras que se estende além-filme e que pode gerar ainda mais resultados positivos e agregadores, inclusive em próximos trabalhos onde as entrevistadas possivelmente poderão com todos estes ensinamentos e experiência de prática se juntar, quem sabe, ao panteão de realizadoras do cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados