Sem rosto, sem medo e sem nada

Por Pedro Guedes


“Own, isso é tão fofinho”, diz uma personagem – no que outra alegremente responde “Seria mais fofo ainda se explodisse”. Esta é a primeira troca de diálogos que ocorre em “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto”, que, logo em seguida, mostra uma terceira pessoa (no caso, um garoto) falando outro absurdo igualmente sádico como se fosse algo comum. Em menos de cinco minutos, o diretor Sylvain White e o roteirista David Birke criam um universo estranho e inverossímil onde a insanidade parece ser o comportamento básico de todo mundo, como se um “Eu vou te trancar numa sala escura e devorar suas vísceras” soasse tão corriqueiro quanto um “Bom dia”.

Mas afinal, existe algum motivo para isto? Não, nenhum. Os personagens agem como completos malucos apenas porque sim.

“Roteirizado” pelo mesmo David Birke que inexplicavelmente trabalhou no excelente “Elle”, de 2016, “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” é, como podem perceber, inspirado numa persona que surgiu na Internet há alguns anos e que se tornou motivo de medo desde então. Assim, o filme já nasce com uma limitação ingrata: por que contar uma história envolvendo um meme que saiu de moda há um bom tempo (nas redes sociais, ninguém mais fala no tal Slender Man)? Com isso, o longa torna-se anacrônico e fora de timing, como se tivesse nascido na época errada – pensem numa pessoa chegando a uma festa horas depois dela ter acabado.

Mas não é só neste sentido que “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” soa deslocado no tempo: de um ponto de vista puramente formal, o que Sylvain White faz nada mais é do que uma tentativa frouxa e cafona de modernizar o espírito dos slasher movies dos anos 1980. No processo, porém, o que o sujeito consegue é criar um filme que lembra mais as refilmagens de “Sexta-Feira 13” e “A Hora do Pesadelo” do que os originais de ambas as franquias – e verdade seja dita: qualquer obra que remeta ao que Michael Bay cometeu contra Freddy Krueger merece perder pontos.

Aliás, White não precisa de muito tempo para demonstrar a que veio: em apenas 15 segundos (é sério!), o cineasta corta de um plano geral enfocando um supermercado para outro que exibe uns carrinhos de supermercado caídos no chão – sendo que estes revelam-se inúteis dentro da cena, não servindo sequer para ajudar a construir qualquer clima de tensão. Ora, então por que apontar a câmera para os tais carrinhos? Mas isto não é nada comparado às ridículas sequências que, em tese, deveriam caracterizar “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” como um filme de terror: os vários momentos onde o personagem-título ataca suas vítimas apelam para travellings deselegantes, distorções exibicionistas nos cenários e câmeras tremidas que soam engraçadas em vez de assustadoras.

O suspense, por sua vez, é construído de maneira ilógica, já que Sylvain White faz questão de indicar a presença do Slender Man na cena antes de tentar criar a expectativa entorno de sua aparição, o que não faz o menor sentido. E quando o assunto é gerar medo, o resultado é digno de pena: na Internet, existem vídeos falsos sobre “espíritos assombrando shoppings” ou “fantasmas na casa de Michael Jackson” capazes de assustar bem mais. Para completar, é provável que White tenha apresentado a pior simulação de uma selfie já inventada pelo Cinema: quando um vídeo amador gravado por uma jovem surge em cena, fica nítido que há algo suportando a câmera e que a garota está apenas fingindo segurar um celular.

Não que “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” fracasse em absolutamente tudo (embora chegue perto disso): a fotografia de Luca Del Puppo, por exemplo, até consegue criar meia dúzia de composições interessantes a partir dos céus nublados e da floresta sombria que abriga boa parte da narrativa. Sim, estas imagens são jogadas aleatoriamente no meio da história, mas… são atraentes de qualquer jeito. Por outro lado, a trilha musical assinada por Brandon Campbell e Ramin Djawadi (outros dois nomes talentosos que certamente não mereciam estar em um projeto como este) descamba para a obviedade total e abusa das notas graves ao longo de praticamente toda a projeção.

Tropeçando ao introduzir as personagens principais de modo apressado e atirando-as em situações assustadoras (ou melhor: “assustadoras”) logo em seguida, antes de permitir que o espectador se apegue o suficiente a elas, o roteiro de David Birke é um desastre completo, já que não apresenta estrutura narrativa alguma – esqueçam os clássicos três atos ou qualquer encadeamento lógico que deveria levar uma ação à outra; os eventos mostrados no terceiro ato deste filme poderiam pertencer ao primeiro ou ao segundo e é isso aí. Sem contar, claro, as personalidades unidimensionais de cada personagem, a ausência de surpresas que talvez conferissem algum frescor à trama e os diálogos inacreditáveis já relatados no começo deste texto.

Dito isso, discutir o desempenho do elenco é uma tarefa prosaica demais; basta dizer que Joey King e Julia Goldani Telles se esforçam, mas não conseguem superar o fato de que suas personagens pouco se diferenciam uma da outra. (Ainda assim, é bom lembrar que um dos primeiros papeis da ótima Rooney Mara foi o da protagonista da horrorosa refilmagem de “A Hora do Pesadelo”, então vai que há uma estrela realmente promissora aqui, não?) Já o Slender Man em si é um slasher sem rosto e sem charme, não chegando aos pés de “primos” como Jason Voorhees, Freddy Krueger, Michael Myers ou Pennywise.

Conseguindo a incrível proeza de fazer com que os breves 93 minutos de projeção fluam como se durassem quatro intermináveis horas, “Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” é uma experiência aborrecida, sonolenta e esquecível que não funciona como filme nem serve para inspirar gargalhadas involuntárias. Para o espectador, resta apenas bocejar e celebrar quando a projeção enfim se encerra.

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