Eternamente Jovens

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


É inacreditável o rendimento que “O Vestido de Myriam” de Lucas H. Rossi consegue conduzir a partir do contraste de seus protagonistas veteranos Tonico Pereira e Camilla Amado. Dois artistas de vasto repertório cênico, inclusive de recursos opostos ou antagônicos, como a extrema espontaneidade e improvisação do primeiro e a rigidez e preparo formal da segunda, respectivamente, mas que ainda assim conseguem amalgamar algo completamente novo para a carreira de ambos neste filme em curta-metragem que traz mais novidades do que todos os últimos longas onde os dois artistas possam ter aparecido em tempos recentes de suas carreiras.

Eis que a tocante, mas não piegas premissa de um casal idoso que reside isolado numa casa, em algum lugar que parece o interior do Rio, extravasa o olhar curioso pela rotina e os hábitos da longevidade cansada do carinho e da fadiga de qualquer relação marital, e alcança um status do que é a essência que permanece independente dos efeitos do tempo, além de teorizar sobre o quanto desta essência pode perpassar por osmose para a pessoa com quem convivemos por toda uma vida.

Acompanhamos enquadramentos belamente fotografados em P&B da mais repetitiva banalidade, desde o acordar, cozinhar e se alimentar, até dormir para acordar de novo. Esta rotina é apenas uma reiteração do convívio de duas pessoas que já devem ter se amado apaixonadamente e onde esta paixão agora se tornou conformidade. Apenas algum trauma ou evento de primeira grandeza do destino faria com que tivesse de mudar ou se adaptar para sobreviver ao marasmo, e, neste teste, saber o quanto um do outro guardam em si mesmos para preservar todos os tempos em uma só cápsula de memória. O quanto do negativo do outro preenchemos com nosso próprio vazio e nos tornamos espelhados nas diferenças que nos aproximam?

O mais curioso é que talvez esperássemos mais este exercício de empatia a partir de Camilla Amado, a mulher do casal, sempre a mulher, a alcunha da sensibilidade em quaisquer famílias onde a situação de gênero obedeça à expectativa de um padrão hegemônico. E não só estamos falando da personagem, bem como da atriz, pois a artista preparada e que antecipa qualquer risco em cena talvez esteja mais preparada para lidar com os improvisos do colega do que o contrário. Mas apesar de Camilla também entregar uma de suas melhores performances na carreira, é de Tonico que talvez venha a maior surpresa e catarse que engrandece o trabalho do filme e de ambos, do casal como um todo, numa metalinguagem com a realidade. O ator que mais possui experiência com improvisos é aquele que terá de se acostumar em traçar os caminhos trilhados pela personagem de sua contraparte na pele de Camilla, e será quem irá quebrar de vez a armadura das expectativas do espectador até romper a barreira da previsibilidade e dar vazão mais do que espiritual ao título desta obra.

Decerto alguns detalhes poderiam ser estendidos, apesar do apuro no olhar, que gera a observação contemplativa do fastio do nada, em pedaços que preenchem esse nada de interrogações espaciais… Eles estão congelados no tempo, como arquétipos mais trilhados pela superfície da empatia através das noções pré-concebidas de um casamento longevo do que pela individualização de quem são aqueles personagens. Há vários quadros belos ao olhar, porém talvez um pouco externos ao quadro geral do quebra-cabeça. O mato, a terra cavada, o bode branco, o vento leve nas folhas…, são todos elementos de extensão passíveis de aprofundamento, mas que ficam mais na imaginação. A única chave dada de compreensão dos afetos recalcados e desgastados são a única cena musicada enquanto o casal dança e a comida preparada todos os dias no piloto automático, que não faz divisar o quanto um ou outro quadro em que este ato se repita possa se tornar subitamente especial perante o restante de projeção do filme, a não ser pela âncora do elenco escalado.

É muito intrigante e irresistível em não se conseguir tirar o olho da tela ao se acompanhar o desdobramento e rendimento jovial e desnudado da alma destes dois protagonistas colossais. Ainda mais para um diretor tão jovem e estreante como Lucas Rossi, que após ser multipremiado com seu “O Vestido de Myriam” já está cuidando de seu próximo trabalho, que será um documentário em longa-metragem sobre o artista brasileiro mais canônico de nossa história, Grande Otelo.

O resultado prescinde de maiores detalhes, assim como o casal prescinde de maiores informações ou detalhes como de onde vieram, como se conheceram, há quanto tempo estão juntos ou quem são as pessoas e elementos de seu entorno que não aparecem em sua solidão fictícia e hipoteticamente metafórica, mas o grande lance é simplesmente que a química entre os dois artistas elencados simplesmente funciona e muito e completa quaisquer outras omissões, talvez até intencionais da trama. Vale ressaltar que não se trata de uma questão de gênero no filme, algo também tão em voga hoje em dia, mas sim uma empatia e identificação do amor pelo outro que encontramos em nós mesmos.

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