O fantasma do retirante

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


Quais elementos nos unem como nação? O que forma uma cultura integrada o suficiente para compor um Estado forte? A verdade é que a própria noção da palavra cultura no singular é um equívoco pré-concebido no formalismo das ideias, pois cultura é palavra plural por excelência, de modo a abarcar multiplicidades que podem ou não convergir, mas onde, porém, divergir também é parte das tensões que mantém a cultura integralizada a um povo. Uma das maiores dicotomias neste grande Brasil é justamente seu tamanho ante o número de população e espaço geográfico ocupado, frente outras nações menores da América Latina em analogia proporcional, galgando por comparação menos centros urbanos ou segregando ainda mais ou um pouco menos seus espaços periféricos, fora da órbita central do capital, como as regiões interioranas. Às vezes, a cultura e folclore de cada região periférica permanece escamoteado pelo que é imposto pelos padrões hegemônicos, e isto se percebe evidentemente quando as causas de trabalhadores do interior são colocadas de lado nas urgências de uma nação; como se fossem fantasmas da pretensa unicidade maior.

O filme em curta-metragem “Maria Cachoeira” de Pedro Carcereri poderia ser encarado a princípio como um exemplar de horror psicológico e sobrenatural, todavia, justamente pelo preâmbulo com que o presente texto foi aberto, é neste diferencial que a obra se desdobra em ainda mais camadas. Na verdade, o chamado “cinema de gênero” sempre conseguiu ocultar críticas sociais muito mais contundentes às vezes justamente por ser uma caixinha de surpresas sob a superfície aparente do entretenimento fácil, do retorno rápido, dos sustos e/ou do deslumbramento por tudo que é estranho ou incompreendido. Isto porque detrás de uma estética ou estilo caprichados, que reúnem mais pela forma do que necessariamente pelo conteúdo em comum, algumas características de um modelo tocante aos filmes do gênero conseguem criar um canal de identificação e vulnerabilidade no espectador pelo qual as denúncias da realidade atravessam muito mais francamente.

No filme, a Maria (Dulcineia do Nascimento) do título é a única que resiste à mudança que leva todos os cidadãos de seu vilarejo a migrar para longe, numa terra abandonada e amaldiçoada por espíritos e uma doença que faz com que as pessoas fiquem presas no mundo dos mortos. Maria flerta com a tentativa de voltar a ser suas muitas Marias pela vida, as Marias que perderam seus entes queridos, e que através deste canal ainda consegue se comunicar com sua terra. Eis a questão. Se Maria perde as raízes que lhe dão caule e galhos e lhe estendem para fora do único ponto marcado de onde brotou, como pode se manter fiel a si…?

Com um desenho de som caprichado ao contornar a realidade para visitar o delírio, confundindo os sentidos do espectador de modo a ampliar a existência da imagem naturalista da região cerrada por árvores e rios, a cachoeira acaba tornando crível que acompanhemos Maria como num túnel do tempo, por diferentes idades ou espíritos visitantes. Tudo nas mãos de Ian Dias, Tiago Picado e trilha por Rafa Castro. É através do encontro entre o espiritual e a materialidade da natureza, em tons bastante autênticos e fiéis à região do interior de Minas Gerais onde foi filmado, respeitando seus folclores e crenças, que Maria se engrandece: de mulher sofrida pelas pelejas da maturidade à mulher de espírito livre à parte do corpo cansado.

O diretor Pedro Carcereri traz consigo uma experiência pelo cinema de gênero com sua produtora Old Man Filmes, e equilibra a proposta estética e sensorial com uma pretensão menor de precisar explicar miúdos do contexto ou arquétipos com que está lidando. O espectador consegue mergulhar no imaginário e aceitar bem o mundo em que é acolhido com caracterização eficiente. Poderia haver uma valorização introdutória um pouco maior do contexto regional, mas mesmo quem não for de Minas Gerais decerto se identificará com questões familiares com todos os interiores do Brasil, em muitas ocasiões presos no paradoxo entre preservar sua memória e tradição que liga aquelas mesmas pessoas à terra e ter de romper com o passado e abraçar uma modernidade a que tudo alcança e compromete a identidade original. Decerto um projeto promissor para futuros trabalhos em que o diretor autoral possa expandir sua criatividade com mais espaço para crescer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados