As perigosas surpresas dos ex-namorados

Por Fabricio Duque


Se analisarmos o cinema por sua mais lógica e intrínseca característica, perceberemos então que se trata de uma arte imagética e em movimento. Podemos também pulular infinitas definições sócio-comportamentais, mas a principal mesmo é o que o “prazer dos olhos”, termo este cunhado pelo cineasta crítico da Nouvelle Vague, o francês François Truffaut. Muito se discute e questiona.

Tudo válido e coerente. O realizador Manoel de Oliveira acreditava e imprimia em seus filmes que a sétima arte deve ser mitigada de qualquer artifício ilusório. Já Christopher Nolan, principalmente em “Dunkirk”, mergulha literalmente o espectador em um universo sinestésico das sensações humanas. Então o que é realmente o cinema e como mensurá-lo? Não há como saber, visto que a cada dia um elemento é despertado. E se dá certo, inerentemente ao indivíduo ser humano, cria-se uma padronização. Uma fórmula. Uma receita de bolo.

Em “Meu Ex é Um Espião”, filme em questão aqui, esta estrutura é corroborada, apresentando uma narrativa temática semelhante entre inúmeros outros que o público já assistiu, recheado de referências ao universo pop contemporâneo. É um produto que objetiva o entretenimento, divertindo como uma fuga da própria realidade. Não que seja ruim. Pelo contrário. A edição ágil prende a atenção, intercalando digressões-lembranças do passado, com seus momentos quebrados por alívios cômicos, desengonçados e surreais, e com sua trilha sonora de músicas antigas que destoam do contexto (um querer proposital de seu roteiro), para assim desconstruir a própria construção de conhecimento padronizado.

Nós somos imersos em mais uma versão do gênero espionagem, à moda de “Missão Impossível”, “007” e “Identidade Bourne”, com um que de filmes que transformam indivíduos civis, aparentemente mais vulneráveis, neste caso as mulheres, em guerreiras lutadoras por suas sobrevivências. É o empoderamento feminino que acorda a força e a ação.

Audrey (a atriz Mila Kunis) está desiludida com o término do namoro com Drew (o ator Justin Theroux), que a dispensou através de uma mensagem de celular. O que ela não sabe é que o agora ex-namorado é também um agente secreto, perseguido devido a um pen-drive com informações sigilosas. Após receber o apoio moral de sua melhor amiga, Morgan (a atriz Kate McKinnon), Audrey é surpreendida com o súbito reaparecimento de Drew, após ameaçar queimar seus pertences. Logo ambas estão também envolvidas no mundo da espionagem, precisando ir às pessoas para Viena, na Áustria.

“Meu Ex é Um Espião” é assumidamente um filme de ação (com tiros, socos, pontapés, bombas, perseguições, escapadas), que remete a “Par Perfeito”, de Robert Luketic; “Guerra é Guerra”, de McG; “Encontro Explosivo”, de James Mangold; “Sr. E Sra. Smith”, de Doug Liman; tudo por apresentar o desconhecido a personagens “mortais”, que precisam “descobrir” habilidades e expandir as possibilidades quase sobre-humanas, algo como “Lucy”, de Luc Besson. E sutis inferências a “Johnny English”, de Oliver Parker, Peter Howitt e David Kerr.

Audrey e Morgan são duas americanas típicas, com seus questionamentos imediatistas, ora fúteis, sobre relacionamentos, profissões, futuros. Elas, duas amigas de trinta anos, vivendo em Los Angeles, conversam abertamente sobre tudo, não se importando com as consequências que soam politicamente incorretas. E seguindo com a imposição dos limites que geram a alienação do próprio viver. Busca-se o tom awkward, de desencontradas reviravoltas sem noção, que naturalizam, humanizam e aceitam o desajustado como essência não mutável.

“Meu Ex é Um Espião” também um filme de situações. Em que o acaso interfere com conflitos, problemas e novas soluções, atrapalhando assim a conclusão do final feliz, que acontece, mas é sempre postergado. Suas personagens “jogadas” modificam prévias percepções e aprendem novas possibilidades de felicidade e novos propósitos tão impensados e distantes da concretude.

Dirigido por Susanna Fogel (criadora da série de TV “Lutando Pela Vida” e diretora do filme “Entre Parceiras”), o longa-metragem “empurra” as personagens a percorrer toda a Europa fugindo de assassinos e um agente britânico suspeito, mas charmoso, enquanto traçam um plano para salvar o mundo.

“Meu Ex é Um Espião” usa e abusa de sacadas espirituosas (que envolvem a maior parte da narrativa), principalmente quando compara a agente da CIA com a cantora Beyoncé, por causa da impostação poderosa. E é também um filme despretensioso, tudo porque não se preocupa com a quantidade de surtos “viagens”, como a apresentação desnorteante burlesca a La Cirque du Soleil. Então, entre tantos altos, baixos, períodos tensionados e mergulhos no despenhadeiro, os espectadores saem com a sensação de dever cumprindo: sentar, comer a pipoca, beijar o(a) namorado(a), desligar o cérebro, se divertir e acreditar na possibilidade desengonçada do final que satisfaz.

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