Sabor requentado

Por Bruno Mendes


Em determinada passagem do filme “Escobar – a Traição”, dirigido por Fernando León de Aranoa, o traficante colombiano mais famoso de todos os tempos mostra ao filho uma porção de pasta base de cocaína e outra de cocaína refinada. Pablo esclarece ao pequeno sobre o teor de periculosidade da droga para o cérebro e pede que ele atenda à recomendação de Nancy Reagan, então primeira dama dos Estados Unidos, que no início da década de 1980 foi voz ativa contra o uso de entorpecentes por jovens.

A obra de Léon – da mesma forma que a série Narcos exibida na Netflix em três temporadas – destaca os aspectos fraternais do homem que incendiou Medellin em décadas passadas. Vale destacar que tanto Wagner Moura (Narcos) quanto Javier Barden, o protagonista deste exemplar, são ótimos ao se debruçarem de forma assertiva nos aspectos íntimos do biografado, propondo um retrato dócil – e verdadeiro, diga-se – ao facínora.

Infelizmente o norte humanizado de Escobar – a traição é tímido e o filme, como tantos outros exemplos comuns que pululam na linguagem do noticiário e das artes, amplifica o olhar em direção à ação de tráfico e à insurgência de Pablo e seus sicários contra o governo, enquanto menospreza aspectos mais sutis.

A abordagem é sobre a ação bélica de justiceiros vingativos em localidades cuja ação do estado é ausente. Jovens não se importam em perder a vida defendendo o ‘bandido santo’, pois suas mães têm casa e vivem confortavelmente. O narcotráfico é saudado onde o descaso do poder público impera.

A lente de Fernando León é amplamente direcionada aos flagrantes destas ocorrências comuns em países periféricos. São registros pertinentes e pontuais. Escobar – a traição passeia por momentos distintos do cartel com desenvoltura, contudo aí observamos o dilema do cobertor curto. Se por um lado o filme capta a atenção do espectador ao expor duelos, ‘realidades’, sequências de ação bem dirigidas, clímax, mostras de “ultra-violência” e principalmente interpretações primorosas; há fragilidades nas construções dramáticas e no flagrante de pormenores. Em curtas palavras: o filme acaba sendo um eficiente recorte do que já foi apresentado sobre Pablo Escobar, faltou ambição, aquele “ir além” providencial.

Adaptado do romance “Amando Pablo Escobar”, a epopeia sombria do rei do cartel de Medelin é exposta pela perspectiva da jornalista Virginia Vallejo (vivida pela atriz Penélope Cruz), que é autora do livro e foi amante de Escobar durante parte de sua trajetória. Ainda que os floreios da relação sejam transpostos de modo adequado, esse desenvolvimento afetivo (ou “afetivo”) de ambos é negligenciado, o que acaba prejudicando a presença de Vallejo na narrativa.

Mesmo sem secundarizações imperdoáveis pelo roteiro, os traços da personalidade forte e arredia da apresentadora de televisão são ofuscados, menos pela óbvia e compreensível ambivalência do protagonista e mais pela direção que opta pela condução acelerada, opção que suga a construção dos personagens.

Há, contudo, um fator que acrescenta alguns pontinhos à produção: o protagonista de primeira linha. O domínio cênico de Barden; muito bem entendido por quem já assistiu filmes como Onde os Fracos Não Tem Vez, 007-Operação Skyfall e Biatiful; tem valor inestimável nessa obra. Além da presença dramática forte – a sequência na qual conversa com Vallejo e salta de uma intenção carinhosa para ameaçadora em ínfimos segundos vale como exemplo – o ator espanhol declinou-se com afinco aos atributos físicos de Escobar, o que reforçou ainda mais a sua irretocável atuação.

Sem o destacado trabalho de Barden, provavelmente esta produção cairia no limbo do esquecimento e seria mais um trabalho ‘apenas correto’ de um símbolo vivo do final do século passado: ao mesmo tempo um ídolo pop e a representação em carne e osso de uma América Latina corrupta e desassistida.

Escobar é uma figura inteligente. É válido atribuir a ele certos méritos, no entanto, Escobar é mais que Escobar. O traficante é o mágico que materializa a ascensão social daqueles que anseiam pelo básico ou de quem almeja se estabelecer no topo da sociedade do consumo.

O filme León expõe esse Escobar grandioso, quase messiânico, mas poderia ter ido mais longe. Faltou surpreender o espectador, pois já conhecemos esse personagem histórico, sabemos que ele é intrigante, por outro lado, também sugerimos guarde segredos, novidades. Infelizmente essa “surpresa” foi escamoteada.

“Escobar – a Traição” é mais um bom filme sobre narcotráfico. É uma pena que essa mesma história já foi relatada tantas outras vezes.

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