Uma magia requentada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Quando lucubramos que um realizador da arte cinematográfica se estagnou no tempo, em uma inocência perdida de uma época mais ingênua, não queremos realmente dizer que usamos o tom depreciativo. É apenas uma consequência, uma característica intrínseca de uma permanência nostálgica. Ainda que soe como uma preguiça.

O brasileiro Carlos Diegues, em “O Grande Circo Místico”, que foi exibido no Festival de Cannes 2018 (que gerou risos na plateia por causa da grande quantidade de créditos dos patrocinadores), e chegando agora no Festival de Cinema de Gramado deste ano, tenta resgatar essa típica pureza, quase a mesma das crianças, pela atmosfera lúdica, que quer a cumplicidade complacente do público.

É um mergulho anti-naturalista que busca distanciar a sagacidade, desenhando uma fantasia mais básica, como em uma facilitadora estrutura de novela transposta ao cinema, como a ficção científica de uma explosão verde de uma cometa. Um anti-neo-realismo italiano que suaviza e romantiza demais o burlesco para que seja assemelhado a Federico Fellini e seu ambiente circense antropológico. Ainda que se desestruture com picardias, “putaria” poética (entre sexo, nudez e sotaque paulista) e com infinitas referências a nossa próxima história de mundo: de Hércules e seus doze trabalhos a Sherazade.

Se analisarmos a trajetória de seu diretor nos místicos e icônicos filmes (como “Dias Melhores Virão”, “Veja Esta Canção”, “Bye Bye Brasil”, “Um Trem Para as Estrelas”, “Xica da Silva”, entre muitos outros), perceberemos então um indivíduo cronicamente otimista. Há uma incondicional esperança, que, apesar das dificuldades, limitações, dores e sonhos partidos, segue reinante e pulsante nas determinações existencialistas de cada um dos indivíduos sociais que compactuam idiossincrasias e diferenças.

Adaptado do poema homônimo presente no livro “A Túnica Inconsútil”, de Jorge de Lima, a história foi encenada no musical criado por Edu Lobo e Chico Buarque, “O Grande Circo Místico”, segundo seu diretor, apenas utiliza algumas músicas temas. O filme, apesar de tudo ter sido (talvez) explicado anteriormente, sofre de um imediatismo retrógrado, inclusive por seu grande elenco que inclui  Bruna Linzmeyer, Mariana Ximenes, Vincent Cassel, Antonio Fagundes.

Seu roteiro, didaticamente explicado, conduz o espectador por uma zona de conforto palatável e infantilizada de interpretações hesitantes (e decoradas – com exceção, logicamente, do ator Jesuíta Barbosa, o Circo personalizado, que fornece cadência espirituosa e leveza bem-humorada, imprimindo rasgadamente Ariano Suassuna). Com música sentimental, apela-se à emoção. É a preferência da beleza à qualidade. É um filme de cenas, de instantes teatrais. Cinema datado, antiquado e viajado aos dias de hoje.

Em meio ao universo de uma tradicional família austríaca, que é dona do Grande Circo Knieps, nasceu um improvável romance entre um aristocrata e uma acrobata. Este é o retrato dos 100 anos de existência do Grande Circo e das cinco gerações de uma mesma família que estivem à frente do espetáculo com suas histórias fantásticas. “Paixão é droga pesada: pode até dar algum prazer, mas bagunça tudo”, diz-se.

“O Grande Circo Místico” é sobre a epifania do “amor místico” que atravessa o tempo e “que nem Deus acaba”. É sobre a mágica que une seres pré-determinados pelo Maktub em que tudo no universo já está escrito. Sobre a vida ser um espetáculo com sua liberdade poética. Com direito à efeitos especiais digitais dos voos das borboletas. “O público só vem ao circo, porque um dia o trapezista pode cair do trapézio”, diz-se com um que de alusão a “O Rei do Show”, de Michael Gracey.

Deseja-se abordar os bastidores e as dificuldades da arte mambembe. As exdrúxulas invenções que recorrem ao “jeitinho brasileiro” (quando pinta uma zebra). “Se a fantasia faz bem, troque então a realidade por ela”, ensina-se. Sim, talvez esta seja o ponto de entendimento. O roteiro foge complemente da veracidade, inserindo uma urgente ilusão a fim de segurar o público no entretenimento do filme que assistimos.

É um filme musical. Ingênuo demais. Puro demais. Fácil demais. E também infantil pelo inserção do humor escatológico que faz graça com “peido”. “Para onde vai o cheiro depois que ele passa?”, pergunta-se em cena. E rimos sim. Mas com certa vergonha alheia. E com uma certa culpa por nossa complacência.

“O Grande Circo Místico” é uma ode ao amor do circo. Uma fábula alegórica de viés amador. Um “só fôlego de uma só nota”. Quer o Chaplin, mas encontra o clichê. É fora de tom. Meio desengonçado. E assim, distancia o espectador, que olha para o relógio, esperando o espetáculo, ops, o filme acabar. É um épico-aventura que se conta pelo tempo. Pelas novas gerações, pelas crianças que crescem, por aqueles que vão e pelos que retornam.

“Para de torcer para dar errado”, diz-se. Abuso sexual, freiras, histeria, “roupa suja no trapézio”, religiosa tatuagem… Ufa, está difícil o filme. Com Pitty a Maria Bethânia, “depois de uma idade, a memória vira um trambolho”. “O Circo não envelhece”, finaliza-se. Mas diretores de cinema sim. E a memória vira um trambolho.

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