Paul Cassel como Vincent Gauguin

Por Vitor Velloso

Durante o Festival Varilux de Cinema Francês 2018


Cinebiografias de artistas, em geral, possuem uma tendência tóxica de serem fetichistas e afetados. É fácil entender, afinal, o roteiro, provavelmente, foi feito por uma admiração massiva pelo personagem em questão, assim, criar maneirismos na linguagem e na atuação torna-se uma das propostas mais simplificadas de ganhar o público.

“Gauguin: Viagem ao Tahiti”, dirigido por Edouard Deluc, é uma vítima parcial deste problema, pois, assume um caráter menos santificado do pintor, mas é frágil nas suas relações com os demais personagens e um pouco solto quanto ao retrato histórico do francês. A trama acompanha Gauguin em sua viagem ao Tahiti, e a recusa de sua esposa em acompanhá-lo, e se apaixonando pelo local e por Tehura. Não há como negar que existe um olhar invasor sobre a paisagem e as pessoas do Tahiti. Não apenas do ponto de vista do protagonista, como também do diretor. A evocação de certa plasticidade do cenário é fruto de um profundo estranhamento que leva à beleza das composições.

A balança disso é a recepção dos nativos à sua chegada e o relacionamento que ele constrói com Tehura (Tuheï Adams), que é um dos eixos do filme, e o mais concreto desenvolvimento da caracterização, vivida por Vincent Cassel. Falar que Cassel é um bom ator, é pleonasmo, porém, aqui ele arquiteta de forma meticulosa um profundo retrato de um homem obcecado, fetichista, misógino, egoísta, mas ainda assim, capaz de amar. É inegável o que Gauguin sente por sua esposa, existe uma ternura em seus toques e alguns olhares trocados que esclarecem isso. Porém, a frieza do homem europeu, na minimização desta mulher indígena, gera um retrato etnocêntrico. Não apenas do artista, mas também do diretor. Esse espírito libertino e “rebelde” que os brancos enxergam, está presente aqui, ainda que em uma dose controlada.

O grande trunfo do longa-metragem, é conseguir cadenciar e estruturar, admiração e amor. Assim como Tehura admira profundamente seu marido, por tudo que ele é, além de sua profissão. O protagonista fetichiza a imagem da mulher em uma obsessão desenfreada por retratá-la, tratando-a como um verdadeiro quadro, simplificando ela a um objeto de cena. Ainda que não seja a intenção de Paul, este massacre pessoal, que ele impõe a ela, fragiliza a relação dos dois a um nível que a encenação não acompanha. Em um determinado ápice desta problemática do roteiro, fica confuso algumas soluções narrativas que geram determinadas reações nos personagens. Gerando apenas o sentimento no espectador, mas uma falta de compreensão da trama.

A fotografia consegue cumprir bem seu papel intimista, optando por quadros mais fechados na casa do pintor, para imprimir uma aproximação maior, e abrindo os planos, em locais abertos, para encantar o público. Pierre Cottereau é eficiente em focar o projeto visual na paisagem e na luz mais naturalista, o que gera imagens belíssimas. Há verdadeiramente um trabalho de sombras a partir da imagem “natural”. Mas ainda assim, o destaque é para Cassel que rouba a cena de todos e impõe um espírito artístico tão inquieto, apaixonante e nocivo a todos ao seu redor, que mesmo quando ele erra e machuca pessoas que ele se arrependerá no futuro, criamos uma justificativa dentro de seu universo. Se todos os aspectos citados acima, de Paul, são magistralmente interpretados por ele, o mesmo pode-se dizer da fisicalidade. Sempre bruta, muito rígido, explosivo, mas com um olhar extremamente sensível para aquilo que ele considera um objeto. Algumas respostas da direção de arte, ao roteiro, são um bocado clichês, mas ainda funcionam bem em uma campo estético um tanto limitador. Refiro-me a algumas roupas, ou o detalhe do protagonista estar ensopado. O que seria uma forma de representar o clima tropical, bastante diferente do que ele está acostumado. Ainda que sejam apenas agentes facilitadores, que não fragilizam nem enfraquecem a forma fílmica.

A beleza cinematográfica venceu a forma mais uma vez e uma das coisas que veremos as pessoas comentando, será a fotografia, pois o roteiro realmente se preocupou demais com uma centralização narrativa, que não é reforçada pela montagem. “Gauguin: Viagem ao Tahiti” é um retrato certamente imperialista de uma passagem da vida do pintor. Mas consegue conciliar bem a imagem como contemplação e a alma de um artista que como pessoa…. é um ótimo artista.

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