O Fantasma são os Outros!

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


Parafraseando Sartre e sua famosa frase “O Inferno são os outros”, e se descobríssemos de fato que nós somos o inferno dos outros, num deslocamento do sentido inverso da ótica da frase? E se descobríssemos que nós “somos os outros”? Somos o preenchimento ou a falta dele no exercício diário de empatia com o próximo, em o quanto aceitamos que eles adentrem as nossas vidas ou não, e o quanto nos perdemos nestes rastros desagregados que deixamos para trás. É engraçado dizer isso caso levássemos em consideração o quanto de espaço há entre nós e os outros, mas, ao mesmo tempo, o quanto nos permitimos espaçar de nós mesmos a desbravar o entorno, uma das piores síndromes da modernidade, especialmente em grandes centros urbanos onde nos fragmentamos e nos invisibilizamos diante da magnitude do meio. As grandes Capitais no país e no mundo são alguns dos piores lugares de se conviver, seja com nossos infernos ou nossos fantasmas…

Não por coincidência, o filme em curta-metragem “Capitais” de Arthur Gadelha e Kamilla Medeiros fala exatamente sobre isso, tendo partido como inspiração de um álbum do saudoso cantor e compositor natural do Ceará, Belchior, versando sobre interações e vazios da alma em coletividade. A história do filme, por si, fala sobre um exercício diário de empatia em não nos deixarmos levar pelos labirintos de nosso corpo na autopreservação que criamos: Tudo começa com uma vizinha que vem a falecer, sem nunca ser mostrada em tela, e este sujeito oculto vai virar o espelho para o que a própria protagonista estaria ocultando dentro de si em deixar de viver. Isolados em nossos apartamentos e rotinas, vamos deixando de construir particularidades que promovam nossa essência ao mundo exterior. Talvez uma das coisas mais interessantes do filme seja a ideia de não corporificar a falecida, e sim tratar o ponto de vista da personagem principal como uma experiência extra corpórea de memórias desagregadas.

O filme vai virando um teste sensorial quase que num exercício de gênero, puxando de leve para elementos do horror psicológico, para transformar a atriz Bárbara Sena em praticamente um fantasma do que deixou de se afirmar. Um fantasma vivo em autoanulação. Assim como no filme “Os Outros” de Alejandro Amenábar, onde os fantasmas são aqueles que não sabiam que estavam mortos.

Para construir este conjunto, o som foi importantíssimo no apoio para a atuação de Bárbara ir aos poucos acreditando estar perdendo a sanidade, de modo a vagar pelo apartamento antes familiar e seguro, ora como se fosse uma desconhecida. As paredes e cortinas possuem trilha e sons descolados da realidade, como num surto ou colapso nervoso. Para além disso, os diretores tornam crível a proposta numa inversão de luzes e cores, de modo a contar cada bloco da história através de um jogo alternado de chiaroscuro, mostrando como esta fantasma em vida se projeta no campo astral para voltar a encarnar depois no próprio corpo, apenas quando recupera o lado humano em sociedade.

A primeira parte do filme é iluminada mesmo em um ambiente interno e fechado, aproveitando das luzes ambientes e artificiais para mostrar mais do que ocultar; num segundo momento, o filme mergulha na noite e nos pesadelos da protagonista, perpetuando as sombras e camadas ocultas na imagem. A próxima elipse temporal já irá nos conduzir para a retomada de contato pessoal sob a luz, na interação com a filha da falecida. E, no fim, o filme reequilibra a balança jogando as duas de volta na noite, na laje do alto de seu prédio, mas desta vez com a luz crepuscular do sol por trás das nuvens para anunciar quais novidades o olhar ainda poderá levar para ambas em meio à escuridão, ao compartilharem um cigarro em mãos.

As elipses e o tempo são importantíssimos para a catarse final, pois sem a passagem do tempo, não haveria a construção e revisão de memórias nem como se estabelecer ligações de empatia, pois o tempo é o maior marcador de afetos e da identidade social que temos a oferecer ao outro. Sem tempo não há lembranças, e sem lembranças não há amor.

Talvez seja necessário se aprofundar no detalhe de que um de seus diretores, Arthur Gadelha, também seja um crítico de cinema como este que vos escreve, levantando questões interessantes para se refletir, como com qual olhar ele pode estar construindo e dirigindo a história com autoconsciência de si ou de seu crivo crítico conforme atua, ou o quão intuitiva e instintiva a criação para que ambos olhares se partam e dissociem antes mesmo de operar em conjunto simbioticamente, ou ao assimilar as referências cinematográficas da bagagem de um crítico…? Outro detalhe interessante é a outra diretora, Kamilla Medeiros, também ter atuado de forma eficiente no filme, como a filha contrita da falecida que irá descobrir afinidades e contato com a vizinha, talvez até algo mais íntimo que só o futuro poderia dizer… Assim como Kamilla também exerceu a função de direção de arte flertando com o cinema de gênero juntamente ao lado de Lola Melo, e também a montagem ao lado de João Eduardo. Há uma multiplicidade promissora da dupla em várias frentes que dão bastante experiência do que poderá advir a mais no futuro da carreira de ambos.

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