Risco bem empreendido

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


A princípio o curta-metragem “A Ponte” de Rafael Câmara poderia parecer um bom argumento para vários filmes em potencial que se desenrolariam dali. O que é decerto uma boa coisa. Talvez pelo leque de possibilidades em aberto há de se cogitar que uma hora ou outra o caminho iria ser definido e as surpresas deixariam de existir…como toda escolha de desenvolvimento narrativo. O espectador é cobaia do desdobramento das possibilidades em cumplicidade com o filme, no que começa a tentativa de prever e talvez até acerte, perdendo parte da graça, mas pode ainda ser surpreendido caso o desfecho selecionado não esteja entre as opções previstas…

Talvez o que surpreenda mesmo em “A Ponte” é justamente o fato de o roteiro tradicional de estrutura clássica dar todas as opções logo de plano, até porque conhecemos bem como é a apresentação da tensão na jornada do herói, os obstáculos propostos e a superação…, mas o interessante é o risco que Rafael irá assumir para quebrar exatamente isso.
A princípio o argumento é bem simples em seu simbolismo: uma ponte é apresentada geograficamente. Duas comitivas de carros passam pela ponte ao mesmo tempo em lados opostos… Parece até início de anedota política, de esquerda versus direita… Mas não é. Um lado apresenta a noiva e seu pai levando-a pro casamento com todas as amizades, equipe e banda atrás. Do outro, um viúvo quer enterrar sua esposa de acordo com o pedido final dela, de dizer adeus na hora precisa do pôr-do-sol.

O que começa como uma comédia com toques rasgados de pressão, aludindo um pouco ao sucesso argentino “Relatos Selvagens”, parecendo que irá levar para um desfecho mais violento…, acaba tendo um corte brusco e uma elipse no tempo bem no meio do curta que leva a desenvolvimento talvez menos esperado. Não necessariamente mais complexo, pois continua na chave da simplicidade, mas ao abraçar o melodrama e entregar uma melancolia assumida em meio da outrora comédia, ainda confiando um monólogo até que bastante comprido para um curta-metragem na voz do veterano Walter Breda, que interpreta o viúvo, poderia decerto descambar para pior. Mas este salto no vazio, este mergulho às cegas na esperança consegue elevar o curta de um divertimento passageiro em algo que decerto será lembrado.

O conteúdo do monólogo e qual dos dois lados “vence”, ou sequer assume ou não que seja necessário vencer ou perder, é uma grata surpresa que metaforiza uma necessidade cada vez maior num Brasil que se vê mais polarizado do que nunca. Casamento ou enterro? Felicidade ou tristeza? Ou…simplesmente, identificação e união?

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