Somos nossa própria música

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


“A Menina Banda”, filme dirigido, roteirizado e fotografado pelo experiente e prolífico diretor de fotografia Breno César, talvez tenha tido a ideia mais ludicamente original dentre todos os curtas em competição no 28º Festival Cine Ceará: assim como o título já evoca, a criança que irá ancorar a narrativa como fio condutor emite sons como um instrumento musical, e irá causar um desconforto nos cidadãos do vilarejo extremamente rico e provocador. Seria ela uma anomalia ou um portal para as pessoas redescobrirem a música em suas vidas, de dentro para fora?

Como um bom fotógrafo experiente, Breno economizou a necessidade de diálogos e focou na sonoridade da imagem, identificando passagens e personagens através de frames significativos. Desde a seleção de elenco através de rostos e costumes marcantes como características para nos guiar na história a planos-detalhes de objetos e pertences que irão identificar mais tardar cada personagem mudo: seja entre os cidadãos perplexos com a menina milagrosa, seja dentre aqueles que começarão a segui-la e buscar em si mesmos e nos costumes locais uma forma de se reencontrar…

As crianças evidentemente são o portal de entrada para este maravilhamento, e o que a trilha sonora antes pareceria um improviso instrumental ainda não harmonizado e em certos momentos até incômodos ao ouvido, vão se agregando conforme outros personagens começam a emitir seus próprios sons também, de modo a crescer um conjunto em sintonia. Especialmente as crianças.

Os planos de detalhes enquadrados pela câmera com protagonismo de cena, mesmo para o que possam parecer de maior insignificância, como flores, ou uma bacia dágua que serve como reflexo espelhado nesta busca do filme, com certeza agregam ao poder metafórico que um filme que pouco pretende explicar ou dizer com palavras. A sequência com a criança cercada de adultos e um fotógrafo mais velho tentando captar a imagem com sua câmera daquelas antigas para demonstrar o tempo perdido onde aquela cidadezinha parou é muito significativa. Os muitos planos fixos e elipses praticamente não se movimentam, mas parecem contar uma história muito mais fluente e cheia de mobilidade do que se movesse de fato em um travelling ou etc.

Vale enriquecer esta análise com uma pequena informação do extracampo, sobre a importância do alerta que o filme significa não apenas para se valorizar os direitos da infância e juventude, como também da territorialidade e do espaço da vivência, de se poder brincar do viver, pois todos os artistas não profissionais em cena advieram de uma seleção com pessoas do movimento Sem Terra, havendo ali uma declaração política do que precisamos preservar e fortalecer como numa banda, respeitando todos os nossos músicos que compõem a cultura e vida deste país.

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