Muitas propostas…

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


“A Escolha de Isaac” de Sergio GAG, como o título já diz, começa com uma proposta bíblica na metáfora direta: ao invés de vermos a velha história de Abraão ser testado em sua fé a matar ou não seu filho Isaac, aqui veremos a inversão do clássico na figura do filho ter de tomar esta decisão agora. Sinal dos novos tempos. Uma interessante premissa. O primeiro plano nos desvia do foco para fitar que a história terá vários cenários e quadros para apresentar outros lados da história. O ator Francisco Gaspar, que aqui interpreta Abraão, mas de forma adaptada para os novos tempos meio órfãos, de modo a ser o irmão mais velho que serve de figura paterna para o resto da família, começa recitando textos sobre a tirania trágica de Napoleão, que não poderia ter outro fim. De certo modo, fala tanto do próprio Abraão quanto de Deus, como uma figura onipresente e opressora, o velho teste entre a fé e a razão… Seguir o dogma da criação porque nos é imposto por uma força maior ou seguir nosso próprio livre-arbítrio dentro de nosso microcosmo sem sermos egoístas com o macrocosmo?

Depois da apresentação pantomímica, outra camada é acrescentada à incógnita de seus personagens: Outro Abraão, desta vez interpretado por Francisco como um tetraplégico, que apenas consegue se mexer do pescoço para cima, está voltando para casa a ser recebido por seus irmãos mais novos e esposa, todos estes seus dependentes economicamente e a quem irá torturar com requintes de manipulação psicológica e sadismo. Mas nenhuma pessoa será tão mal tratada quanto seu irmão mais novo, Isaac, interpretado pelo também excelente ator Ariclenes Barroso (revelado nos premiados “Ralé” de Helena Ignez e no ainda inédito “Aspirantes” de Ives Rosenfeld). Um segredo é guardado pelo filme: Abraão culpa Isaac pelo acidente que o deixou tetraplégico, mas nada é informado sobre o quanto isto é verdade ou o quanto Isaac seria (in)conscientemente culpado de fato.

A terceira camada agregada advirá com a choradeira viúva que percorre a cidade vestida de preto como uma prenunciadora bíblica dos maus agouros, como uma narradora trágica à parte da história. Uma figura verídica na história de muitas regiões interioranas por este grande Brasil, mesmo em extinção, de senhoras que iam ao enterro de terceiros para chorar cânticos em homenagem ao falecido, e ganhavam por isso. Esteticamente, ela combina muito bem com a plasticidade da terra criada fabularmente para a história, porém suas citações à Bíblia soam um pouco repetitivas das metáforas já apresentadas, causando um pouco de tráfego de informações. Um pouco menos talvez teria sido mais neste caso.

Mas é na parceria central que se sustenta o verdadeiro arcabouço valoroso do filme, na dupla composta pelos protagonistas de Ariclenes Barroso, ampliado pela dúvida da índole de seu personagem, e Francisco Gaspar, com excelente trabalho de corpo e força tanto de expressão quanto de fluidos, apenas movendo a cabeça e orifícios à disposição (lágrimas, saliva e respiração viram trunfos na demonstração de seu ofício minimalista pela condição limitada imposta ao personagem). Mas vale ressaltar a interpretação da atriz Dani Majzoub como esposa de Francisco, pois mesmo com menos tempo em cena, foi bastante criativa com recursos cênicos para não ser esquecida diante da dupla.

Um pouco mais de edição nas ideias ou de concentração dos pontos fortes e talvez outras partes não teriam se dispersado sem necessidade, como a bonita locação do interior de São Paulo, entre montanhas e o ar pesado e ocre da terra em seu entorno, numa realidade que é viva para muitos brasileiros independente das metáforas abstratas e bíblicas.

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