Fotogenia da melhor idade

Por Filippo Pitanga

Durante o Cine Ceará 2018


“A Canção de Alice” de Bárbara Cariry é um excelente exemplar da tendência brasileira em se explorar a docuficção e os limites entre a realidade do que se escuta e a ficcionalização da poética no que se vê. Por que personagens da vida real deixariam de ser mais reais se os levássemos para um recorte lírico da visão subjetiva da autoria na imagem e narrativa dramatúrgica em se contar essa versão da história?! É nisto que Bárbara galga sua obra, construindo e edificando um retrato da terceira idade e da memória através de uma protagonista que lhe serve de atriz não profissional e com quem a diretora exerceu bastante seu trabalho de escuta para agregar e crescer seu projeto.

Existe um limiar entre o relato puramente confessional e a direção de atores com a construção imagética para cercar o filme de linguagem cinematográfica. Parte deste trunfo bem-sucedido advém dos parceiros de longa data em trabalhos em comum da equipe, como a fotografia de seu irmão Petrus Cariry e o som de Érico Paiva (Sapão), sem falar na montagem de Firmino Holanda. Mas nada disso seria capaz sem o pulso firme de Bárbara e sua consciência de execução. Ela claramente possuía uma visão que é levada até o final, como a relação de confiança que estabelece com a atriz não profissional Teresa Farah que interpreta a Alice do título e descortina um discurso tanto em palavras quanto em plasticidade sobre a vida que há na memória da morte, tanto quanto o caminho inverso, a morte que há em cada dia de vida para apreciarmos cada dia como uma dádiva…, como as ondas do mar vistas num belíssimo zenital em P & B que vão e vêm nas quebradas da areia para nunca repetir a mesma face do mar nenhuma vez – uma imagem que morre e renasce a cada frame – algo entre Heráclito de Éfeso e Lulu Santos…, como uma onda no mar.

O nível de intimidade é extremamente bem trabalhado, como nos enquadramentos do corpo de Teresa, até mesmo em cenas corriqueiras e habituais, como cortar o cabelo – cortado, aliás, pela atriz Samya de Lavor, também presente no Festival com o filme “O Barco” de Petrus Cariry na Competição de longas, numa interessante troca entre artistas profissionais e não profissionais num preparo de elenco feito diegeticamente. Mas o destaque fica com certeza para as cenas de banho da personagem, com super closes em sua pele e poros, de modo belamente singelo, numa beleza aflorada da terceira idade e da experiência de vida como um mapa de felicidades passadas e autoconhecimento de si, impresso nos sulcos e curvas. Uma cartografia do corpo explorada pela fotografia em planos fechados inversamente proporcional aos planos abertos – vista de longe, a natureza pode parecer um corpo da terra tanto quanto de perto o ser humano pode parecer quilômetros de terras a serem explorados. Os planos de banho parecem muito ter sido uma homenagem ao banho da avó da diretora japonesa Naomi Kawase no cult imperdível “Tarachime”, onde a cineasta filma com extrema liberdade sua avó que está perto de falecer enquanto registra simultaneamente o nascimento do próprio filho. Uma troca da fonte de vida.

Há um estranhamento também com headshots do rosto de Teresa em meio ao texto falado do roteiro que, noutros momentos do filme, se dão no extracampo como uma narração em off. Mas os closes parecem quebrar a subjetividade para resgatar voluntariamente a veracidade dos testemunhos, de modo a confundir de vez o que foi relatado de forma verídica e o que foi inventado – Mas faz diferença? A catarse provocada pelo cinema no espectador continua verdadeira. Cinema é a mentira mais verdadeira do que qualquer verdade que você irá escutar hoje em seu dia.

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