Um resgate ao mundo encantado com um que de Peter Pan

Por Fabricio Duque


A versão personificada sobre o épico da transformação da fase infantil à adulta do melhor amigo do Ursinho Pooh, “Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível”, conduz sua narrativa pela fábula moderna. É uma metáfora à moda de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas” (até o ator é o mesmo e árvore é parecida) com “Alice no País das Maravilhas” (pela expansão libertária do transcender o momento da mudança), de Tim Burton. Em que traça o caminho da maturidade e suas responsabilidades adquiridas e obrigatórias, fazendo com que percamos a inocência da infância pela intolerância ao próximo e pela mais introspectiva individualidade.

Que afasta família pelo trabalho. Que esquece os brinquedos do passado como uma alusão mais realista a “Toy Story”. E também a saga  “Harry Potter” (principalmente por suas estações de trem). É a necessidade do crescimento. De amadurecer como gente grande. De se afastar da ingenuidade perdida de “Peter Pan” e transformar sonhos em realidade. É entrar em “Matrix”.

Dirigido pelo suíço Marc Foster (de “Por Trás dos Seus Olhos”, “Em Busca da Terra do Nunca”, “Mais Estranho Que a Ficção”), é um filme cadenciado ao apresentar a trama com a tipicidade orgânica e sarcasticamente humorada dos ingleses. O Ursinho Pooh também se distancia da felicidade desmedida dos outros filmes da Disney. Ainda que com final feliz, constrói uma sensibilidade sentimental mais humana, sem esconder, intrinsecamente, a tristeza, a melancolia e o abandono.

Aqui é usada a filosofia de “O Pequeno Príncipe” que diz que “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Sim, mas não há mais espaço a simplicidades. O complexo da vida engessa e cria uma falsa sensação de urgência. De correr a algum lugar, mesmo que não saibamos para onde. Uma impotência destrutiva em ter que optar por escolhas. Estabilidade financeira versus a alegria de se estar com quem se ama.

Christopher Robin (o ator Ewan McGregor) já não é mais aquele jovem garoto que adorava embarcar em aventuras ao lado de Ursinho Pooh e outros adoráveis animais no Bosque dos 100 Acres. Agora um homem de negócios, ele cresceu e perdeu o rumo de sua vida, mas seus amigos de infância decidem embarcar no mundo real para ajudá-lo a se lembrar que aquele amável e divertido menino ainda existe em algum lugar.

É um filme de gênero realismo fantástico pelo design do Ursinho Pooh e seus amigos. É baseado nos livros e poemas de A.A Milne – que os representavam como bichos de pelúcia. Christopher Robin é o personagem que tem o mesmo nome de seu filho. Seguindo o estilo da arte clássica de Walt Disney (principalmente por seu preâmbulo abertura que ambienta o espectador na estória), em que animais eram falantes e possuindo as mesmas características dos humanos.

“Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível” alude a temáticas filosóficas, de análise comportamento-existencial. Quando um ser inanimado ganha vida na fértil mente de uma criança, nós adultos entendemos e dizemos que é uma projeção dos medos e ou anseios dos pequenos. Mas ao acontecer na fase adulta nossas limitadas e podadas percepções já rotulamos e definimos como loucura, vide cômicos filmes como “Ted”, de Seth MacFarlane, e ou seriados como “Wilfred”, com  Elijah Wood.

A psicanálise explica que esta é uma fuga da realidade, e ou uma rebelde falha do corpo que avisa que a tolerância a algo que não se quer está no limite de suas faculdades. No curta-metragem “A Batalha de Nessie”, de 2011, de Kevin Deters e Stevie Wermers, diz-se “Tudo tem limite e cansa”. Em “O Ursinho Pooh, ou Winnie The Pooh”, de Stephen J. Anderson e Don Hall, adjetivos são pululados para definir o viciado em mel, como resignado, apático, deprimido, indiferente a tudo (e bem sutilmente desejando a morte). “Eu tenho um cérebro pequeno e palavras difíceis me confunde”, diz. Contudo, no filme em questão aqui, ainda é enunciado a amizade incondicional.

“Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível” imerge o espectador não na manipulação gratuita das lágrimas, mas sim na inerente reação da emoção naturalista. Tudo porque conjuga a perspicácia inglesa com a epifania da fantasia com a credibilidade comparativa dos sentimentos humanos mais primitivos (a competição, a fofoca, a carência). O filme é uma viagem à essência, a redescobrir a vida nas pequenas coisas, permitindo a catarse e a entrega à pureza da infância. É uma Disney mais adulta, mais madura e menos suavizada com as questões morais. É uma parábola que transmite sua mensagem sem ser panfletária de um exemplar de auto-ajuda.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados