Esquizofrenia pictórica e naïf

Por Filippo Pitanga

Durante o Festival Cine Ceará 2018


“Diamantino” de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidit ganhou o grande prêmio da Semana da Crítica na edição deste ano em Cannes e já chegou inédito ao Brasil pelo 28º Festival Cine Ceará com toda a expectativa em alta. E, de fato, o primeiro longa-metragem da dupla de cineastas que já vinha de carreira consolidada em curtas-metragens, numa coprodução entre Brasil, Portugal e França, possui a mistura inusitada entre o non sense, o naïf e o cinema de gênero para surpreender as estimativas. Tanto para o bem quanto para o mal. Vai depender do espectador para qual lado da balança lhe irá pender…

A princípio, a trama segue o jogador de futebol famoso de nome Diamantino, um craque da bola com coração maior do que o estádio de futebol onde joga e com o cérebro menor do que o apito do árbitro. Na verdade, seria injusto falar em inteligência com este personagem, e sim mais para desenvolvimento emocional e cognitivo de uma criança muito pequena que não sabe o que é injustiça, nem o que as paixões podem provocar em seu corpo. E é importante anunciar isso de plano para que a trama tenha ao menos chance de funcionar para quem assiste, pois em meio ao extremo apuro estético e o intercâmbio entre gêneros cinematográficos (da comédia à espionagem e ação), o roteiro irá trabalhar bastante alguns aspectos politicamente incorretos para tentar criticar certas situações atuais na Europa polarizada politicamente e crescentemente conservadora e mais xenofóbica do que nunca na história. E é justamente a parte ingênua da personalidade de seu protagonista que tornará palatável as indiscrições mais ousadas ou polêmicas da trama, que vai de investigação de agentes secretos por sonegação de impostos a refugiados africanos na Europa e até espionagem, clonagem e manipulação política de massas… à la James Bond.

O melhor é concentrar pouco deste presente texto falando sobre a trama, que possui vários pontos de virada não apenas no desenvolvimento de personagens como no próprio ritmo e arcabouço de gênero, e sim focar em como a extrema plasticidade se encaixa numa proposta interessante e conjugada com atuações curiosamente bem trabalhadas para um filme mais calcado na adrenalina das viradas e risadas do que no intimismo de cena. E boa parte disso se deve ao contraste da coprotagonista interpretada por Cleo Tavares, uma verdadeira revelação, quimicamente bem conjugada com o personagem-título na pele de Carloto Cotta (parceiro de longa data dos diretores). A dupla vai encenar interações inusitadas de acordo com que vão sendo melhor apresentados. Ele, ao menos fisicamente, parece a paródia exata do famoso jogador português da vida real Cristiano Ronaldo, de tal maneira parecidos que fica a curiosidade de como este irá receber o filme que é tão surrealista e rocambolesco que só poderia ser encarado como uma brincadeira e jamais uma ofensa. Já a personagem de Cleo é quem dá credibilidade a todas as tentativas de tornar a narrativa mais séria e profunda.

Cleo começa como uma agente secreta lésbica investigando sonegação de impostos, e, para tanto, se disfarça de um jovem adolescente refugiado de Moçambique que Diamantino adota como filho para compensar a perda recente do pai. Ou seja, já começamos com três tópicos extremamente espinhosos como a troca do gênero e sexualidade da personagem, o tema dos refugiados e o incesto na evidente tensão romântica na qual o filme tentará se escorar entre os personagens… Alguém pensou no caso Woody Allen?! Pois é, difícil… Mas Cleo não interpreta o seu papel do mesmo modo comicamente inocente como Carloto (que, por sinal, o faz muito bem também, conseguindo a credibilidade de uma criança mesmo sob os músculos de um gigante adulto). Cleo ri bastante no início das palhaçadas de Diamantino, julgando ele como um imbecil, assim como o espectador, como se ela adotasse o lugar da plateia em recriminar a tentativa do filme em subestimar a inteligência da plateia através de tanto disparate. Mas a própria personagem da agente secreta que passa a ser adotada como um menino adolescente acaba comprando a credibilidade por trás de tanta ingenuidade, o que consegue transmitir confiança ao destinatário do filme como se estivéssemos nós mesmos no lugar dela.

Num emaranhado de surrealismos, talvez quem aproveite melhor o desenlace crescentemente caricatural e de paródia da realidade decerto é a construção imagética advinda de uma profunda experimentação com cores e artes plásticas de dois diretores que gostam de manipular a imagem na pós produção. Para além dos cenários e direção de arte que dão um capricho à ironia com as grandes fortunas, castelos majestosos e paredes de azulejos mitológicos, os próprios artistas vão passando a parecer eles mesmos estátuas num jardim suspenso da Babilônia. Desde as irmãs gêmeas perversas do protagonista, duas histéricas que emolduram a tela com a perfeição da cútis pálida e os longos rabos de cavalo se movendo em uníssono como vilãs de James Bond, à ministra da cadeira de rodas, ao par romântico anterior de Cleo, a parceira agente secreta (Maria Leite) que passa a se disfarçar de freira como se estivesse num filme de Pedro Almodóvar ou Alejandro Jodorowsky… Até Cleo de biquíni no final parece se juntar ao mar de referências pop e parecer com a famosa cena de Halle Berry em “007 – Um Novo Dia Para Morrer” que, por si, homenageava Ursula Andress em “007 contra o Satânico Dr. No”.

Contudo, não é apenas por causa disso que a mistura doida do filme dá certo. Há uma tradição maior do que nunca no cinema português recente em abraçar o surrealismo e a fantasia, mesmo para as maiores questões do real, como documentários ou denúncias sociais, como na trilogia “As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes, no lúdico e metalinguístico “O Ornitólogo” de João Pedro Rodrigues e o denso “Cavalo Dinheiro” de Pedro Costa. Existe de fato uma tendência que anda outorgando ao cinema de Portugal brincar com a realidade fílmica como forma de ampliar a contundência verídica. E “Diamantino” se encaixa bem nesta onda de iniciativas surrealistas de modo a não perder sua credibilidade por completo mesmo quando sua trama abandona algumas das várias propostas que vai levantando ao longo da projeção.

Na verdade, um dos maiores pontos fracos é justamente tentar surpreender de tal maneira o espectador em para onde a história irá seguir que acaba deixando muitas pontas soltas desnecessariamente inacabadas, não para deixar um final em aberto, muito em voga também ultimamente, mas sim unicamente para focar no romance acima de tudo, que é a parte mais fraca de todas as propostas. Além disso, até na questão trans de mudança de sexo o filme perpassa, igualmente sem trabalhar a contento, e talvez sem querer mexendo em questão complexa demais para apenas tentar arranhar a superfície e sair ileso a críticas de representação equivocada, mesmo bem intencionado.

Com certeza um filme que diverte se a pessoa se entregar à sátira, mas cujo conteúdo poderia se definir melhor para auxiliar que a grandiloquência do formato se tornasse inesquecível… ao invés de deixar com um leve gostinho de fel ao final da recepção.

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