A vontade de ser lembrada

Por Filippo Pitanga

Durante o Festival Cine Ceará 2018


Talvez a experiência de imersão em assistir o filme “Amália – A Secretária” de Andrés Burgos tenha sido um pouco prejudicada pela sequência de filmes com que foi escalada na Mostra Competitiva. Dois longas seguidos na mesma noite concorrendo na Competição principal do 28º Festival Cine Ceará, aparentemente díspares e opostos, podem ter colidido um com o outro, possivelmente gerando resultados diferentes para cada um deles. O primeiro filme, o documentário “Eduardo Galeano Vagamundo” de Felipe Nepomuceno, sobre o saudoso escritor e personagem título, começou a noite de forma intimista e poética com uma aura etérea de espiritualidade cinematográfica, que evocou a essência do famoso autor, há de exemplo os clássicos “As Veias Abertas da América Latina” e “O Livro dos Abraços”, através de leituras feitas por grandes nomes como Ricardo Darín, João Miguel, Paulo José e etc… Então, o clima com que foi deixada a plateia acachapada, num transe imaterial, talvez não tenha conseguido alcançar a abertura necessária para uma comédia caricatural em seu cerne.

Mas, por incrível que pareça, havia certas conexões da experiência de se assistir ambos os filmes em sequência. E, pelo menos para este crítico, a imersão começou de fato a partir do atravessamento com que as cores provocaram construções emotivas em ambas as obras: a primeira por ser em P&B com pouquíssimos toques de cor, como um toque de vermelho representando o sangue da América Latina que cruza suas obras; e, a segunda, por ter o predomínio de tons de ocre e cinza, típicos da paisagem urbana da cidade na Colômbia onde se passa a história, bagunça a vida da protagonista de ponta-cabeça apenas quando se começa a diversificar os tons do arco-íris kitsch que irrompem na tela.

Portanto, ao invés de começar a falar sobre o filme estritamente através das cores, ampliemos a conjugação com o empenho da atriz principal, Marcela Benjumea, veterana colombiana do teatro e da TV (especialmente telenovelas). A atriz consegue encarnar um tipo exótico e sem vida, dedicando-se unicamente para secretariar seu chefe que possui uma vida ainda mais vazia, e cuja rotina são pequenos alívios como chupar e depois devolver para o recipiente as balinhas coloridas de cortesia que ficam em sua mesa para as pessoas que passam pelo escritório, apenas para ver aqueles de quem não gosta mascando algo já mastigado. O próprio biotipo da atriz é realçado para ampliar as características de estranhamento, como os olhos fartos de cílios longos em rosto arredondado, e franjas emoldurando a testa, dando uma impressão de cinema mudo onde a expressão tinha de ser ampliada para concentrar toda a dramaturgia necessária. Corpo, gestos e figurino também auxiliam na parte cômica metafórica de sua vida, enclausurando-a num blazer sem cor e que lhe amarra seus movimentos — como os de dança que ela tanto almeja aprender.

No demais, o filme toma seu tempo para apresentar a personagem com muitas minúcias por suas interações com os ambientes em cena, o que pode parecer excesso de detalhismo e atraso de desenvolvimento na trama, até porque a própria trama não irá engrandecer de tal forma ou ampliar a contextualização de estofo sócio-político para justificar o aprofundamento intimista de personagem… Porém, ainda assim, o carisma de Marcela Benjumea acaba agarrando o espectador uma hora ou outra. Como pode ser citado, no caso deste que vos escreve, a partir da cena impagável de Yôga.

O filme também conta com outros pequenos trunfos para tirá-lo do marasmo, especialmente quando assume de vez a parcela romântica em meio à comédia e como a oposição total de características do par romântico irá fazê-la enxergar o quanto ela não se esforçava para alcançar o próximo. O interesse de sua paixão relutante será o funcionário eletricista da empresa que começará a fazer reparos constantes na sala da secretária, num papel feito sob medida para o também carismático Enrique Carriazo — arquétipo que quase repete a fórmula muito mais bem-sucedida do maravilhoso filme chileno “A Noiva do Deserto”.

Mas é na casa da protagonista, onde a trama paralela na teoria seria a menos trabalhada pelo roteirista, que a atuação das coadjuvantes no elenco irá roubar a cena e complexificar um pouco o romance afora da unidimensionalidade do trabalho. A primeira é a personagem da melhor amiga, que cuida da mãe doente de Amalia por uns trocados, e possui um segredo até que bem interessante e que podia ser mais explorado…ainda que não seja. E a segunda é a personagem da própria mãe enferma, com algum tipo de demência ou Alzheimer, que não consegue lembrar da filha nem conversar com ela, como se Amalia não existisse, mas que vai ser a chave para esta recuperar a possibilidade de ser feliz.

Um filme que desperta curiosidade e algum interesse no olhar, especialmente pelo tratamento estético na direção de arte, mas que infelizmente não alcança vôos maiores nem insere a protagonista da secretária num contexto mais relevante, seja de classe ou de gênero ou mesmo de direitos trabalhistas em seu país, à despeito do esforço de sua protagonista para que lembremos de sua personagem (mas não do filme).

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