Uma crônica sobre existir em tempos atuais

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes e Festival do Rio 2017


Acontece com “Como é Cruel Viver Assim” a mesma sensação de ame ou odeie que ocorreu na época do lançamento de “Família Vende Tudo”. Tudo por causa de seu conjunto de elementos mais orgânicos, de imersão a um mundo cão da sobrevivência dos economicamente despreparados. As personagens do novo filme de Julia Rezende (de “Um Namorado Para Minha Mulher”, “Ponte Aérea”, de “Meu Passado Me Condena 1 e 2”), filme em questão aqui, representam o próprio povo. Que precisa se desdobrar para que possa existir. Não dignamente por causa das limitações de comida e bens materiais, mas para acreditar que realmente são seres humanos e se reconhecer no espelho como parte da sociedade.

Se a sessão especial para compradores no Festival de Cannes 2017 já inseriu o espectador nestes questionamentos e nesta estrutura espontaneamente de cinema bruto e direto, a versão final apresentada no Festival do Rio do mesmo ano incomodou tanto o público que a solução auto-protetora foi o precisar do distanciamento. A realidade abordada é hostil, destrutiva e seus protagonistas precisam rebolar para não deixar a peteca cair. Chega a ser um mergulho antropólogo da situação social atual, de integrantes da pátria, que fogem das dores com seus pequenos e estimulados instantes de descanso. Em felicidades em micros doses e em pseudoconceito das alegrias humanas e passionais.

“Como é Cruel Viver Assim” tem um que desordenado e propositalmente surtado de “O Roubo da Taça”, de Caíto Ortiz, pelo tom cômico e mais cru de corroborar, com a análise da autocrítica (mitigando-se assim a ingênua caricatura), estereótipos do meio vivido, como a bolsa pochete, tipicamente oitentista, e dos julgamentos de seus ignorantes (por falta de conhecimento) personagens.

Vladimir (o ator Marcelo Valle, do seriado e filme “Meu Passado Me Condena”, o capitão Oliveira de “Tropa de Elite”, e o delegado de “Madame Satã”) está desempregado e também perdido na vida. Sem dignas perspectivas de seu futuro a sua família, desenvolve um desespero, cada vez que escuta sua mulher, Clívia (a atriz Fabiula Nascimento, de “Estômago”, “S.O.S. Mulheres ao Mar”, “O Nome da Morte”), dizer que sonha com uma linda festa de casamento. Eis que surge Regina (a atriz Debora Lamm), uma amiga do casal, que propõe um plano: sequestrar seu ex-patrão, riquíssimo, casa em que trabalhou durante quatro anos como babá e sabe de cor todos os rotineiros detalhes. Então, Vladimir resolve arriscar tudo e acha que essa é sua grande oportunidade de realizar algo grandioso e se sentir respeitado pela primeira vez na vida. Ele convida Primo (o ator Silvio Guindane), um amigo mais enrolado do que ele, para completar o time. Enquanto tomam as providências práticas, revelam-se suas frustrações, ambições e medos.

“Como é Cruel Viver Assim” é uma avassaladora dissecação moral do ser humano ao expor visceralmente as mais primitivas, egocêntricas, manipuladoras, mercenárias e disfuncionais características que pululam nas entranhas individualistas de cada um de nós. O incômodo é exatamente esse: o confronta com a nossa selvageria de sobrevivência a qualquer custo. É a lei do mais forte. Briga de cachorro grande em que só os fortes têm vez. E alguns, por falta deste atributo, potencializam a cínica esperteza do famoso jeitinho brasileiro, entre aulas de correção de português, tesão em maquiagem borrada, digressões de como o “casal perfeito” (que entende as manias um do outro) se conheceu, e a “empada que foi feita para fazer farelo”. “Quando vira memória é a mesma merda”, diz-se.

O longa-metragem nos conduz pela tolerância limítrofe, pela fotografia saturada ao desgaste e pela câmera não convencional que adentra o conceito da metáfora concretista. E acompanha os dramas sociais. Ora focando em close o trabalho realista e não ator de um deficiente. Logicamente, tudo conjugado com humor espirituoso e com o rebate das cúmplices chacotas, como o “cabelo explosão de melancia” e a sistemática e transtorno obsessivo. Irrita-se com as dificuldades. Mas vivencia plenamente o enraizado estágio Kitsch brega e no rádio que toca “Eu vou tirar você deste lugar”, de Odair José.

É um filme de pele, suor e barba. De pequenas implicâncias (que fornecem uma recuperação das rédeas, como beber água na boca da garrafa). Todos têm exato conhecimento da condição que se encontram. Que são adultos. Contudo, a infantilidade constrói uma falsa alienação, assim como samba, cerveja e carnaval. Precisam despertar o “capeta dentro”. Do negativo ao positivo. Ao se deparar com a arrogante crueldade dos outros, principalmente em uma entrevista de emprego. São inocentes amadores (brincando de inteligentes) que acreditam que podem “virar gente” (“degustando para tirar o gosto de fome da boca”) e lidar com a naturalidade de um sequestro, por exemplo. São sinceros (sem papas na língua e com “papinho reto”) moleques fazendo molecagem. Achando que são “criminosos respeitados”. É como na música que a Rita Lee cantava: “Adeus sarjeta, Bwana me savou”. Neste caso, a facilidade da ilegalidade desesperada.

“Como é Cruel Viver Assim” é um filme de situações politicamente incorretas. Mas humanizadas (tanto que torcemos por esses fofos e ingênuos criminosos). De planejamento. De reviravoltas que complicam para criar o final feliz da redenção (o “morrer para sacanear”). E salvar a consciência. Por um controle absoluto da direção de Julia, nós sentimos uma estruturação semelhante a Quentin Tarantino. “Crise tem suas fases, igual à moda”, diz os barraqueiros pobretões “burros marrentos” cariocas. É seco com caminho decorado. A ação radical é uma revolta contra um sistema que oprime e que segrega ricos, pobres e miseráveis. É um protesto revidado. Com demasiada passionalidade e emoção desmedida (como a pureza do viver das crianças). “Quando a coisa é pra ser, é pra ser”, finaliza. Sim, inclusive este desbocado, livre e despretensioso filme em questão aqui, que se descontrola para traduzir as fragilidades das necessidades humanas dentro de uma despirocada estrutura social, atual e moderna. Que se despe de vaidade para construir o simbolismo d e uma autopsia. Os atores entenderam a essência do roteiro e se entregaram sem amarras da volta. Não saímos imunes. Tampouco eles. Tudo com o humor que revela mais verdade que a própria realidade desvelada.


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