A projeção querer da estrada nossa de cada dia

Por Fabricio Duque


“Estradeiros” é um filme de estrada. Um road-movie que nos embarca em aventuras de personagens nômades, seres humanos que escolheram o andar e não o chegar. É uma viagem a estas experiências vivenciadas pela escolha à simplicidade. De existir com pouco, trocando a pressa e a pressão do dia-a-dia pelo sossego, pela calma de sentir a própria vida. Para estes estradeiros, o momento é o agora (“para onde eu ia, cheguei”).

O documentário, dirigido por Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, também incomoda por confrontar o público com o querer questionador da característica mochileira, que pulula o imaginário popular e se não fazemos por nosso aguçado apego ao comodismo e a um pseudo conforto. Sim, chega a ser um filme cruel e sádico, principalmente quando acelera carros em hiper movimentos, à moda do filme “127 Horas”, de Danny Boyle.

“Estradeiros” busca traduzir o porquê e a essência da aventura destes andarilhos modernos, que optaram pelo estado dos índios, que pegam carona em caminhões de lixo, que moram em barracas (na rua e ou na praia e ou em comunas) causando a sensação da viagem. Somos convidados a participar desta alternada e embrenhada experiência de mudanças, à moda de “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn.

É um estudo analítico sobre indivíduos sociais que lutam para não serem escravizados pelo sistema capitalista, provando que “viver na resistência é possível”. E também metafórico ao criar paralelismo com formigas andantes em seus propósitos únicos, indo de um lugar a outro. São artistas de rua e pedintes da arte, orgânicos mambembes em amadores números circenses, improvisando na vida com a fantasia lúdica da própria existência. Quase utópica em um hostil mundo distópico.

“Estradeiros” consegue captar esta encenação deles mesmos quando constrói o conceito das figurativas à câmera (em performances estátuas-vivas), como a invertida imagem (de cabeça para baixo) e ou closes de rostos que nos encaram e nos olha diretamente. E ou pelas imagens sobrepostas de indicação psicodélica concretista. É o típico mundo upsidedown. Nós percebemos também características enraizadas, como ofertar cerveja ao santo (derramando um pouco no chão).

Estes mochileiros por opção, muitos estrangeiros migratórios, como aves procurando a energia do verão, declinam das falsas necessidades materiais e se jogam no que o caminho tem para oferecer, como no filme “Gabriel e Montanha”, de Fellipe Gamarano Barbosa. “Todo caminho tem um preço”, ensina, e assim, igual na música “O Velho e o Moço”, dos Los Hermanos, aceitando plenamente a condição consequência de suas escolhas.

A pergunta “O que leva alguém a viver assim?” é constantemente confrontada com nossos medos limitados de largar tudo e seguir sem rumo. De libertar a rotina com a totalidade de nossos mais primitivos, intrínsecos e instintivos desejos, que transcendem o querer tornando-se uma obrigatória necessidade de autoproteção.

Quem nunca pensou em abdicar das responsabilidades da própria vida? Cada dia, um lugar diferente? Serra ou praia? Pipa, Petrolina ou Parati? “Estradeiros” dá ouvidos a causos, dificuldades, desventuras e acontecimentos felizes destes que não têm destinos, que aproveitam o caminho e ficam até o estímulo da mudança. É uma reinvenção permanente. Uma redescoberta diária. De São Paulo a Buenos Aires, a “selva de concreto”.

Da Colômbia ao Rio de Janeiro. De compartilhar idiossincrasias, diferenças comparadas, cúmplices chacotas (inocentes brincadeiras), e vivências com caminhoneiros e seus “arrebite” e com próximos em vibes afinidades. E ou a simples e pura contemplação das cores de um céu à noite. Sem a “tecnologia que corrompe o espírito”. “As pessoas piram porque vão muito para o lado material”, diz um personagem alterado.

Busca-se perpetuar a fluidez da energia. Entrar em contato com a natureza e com o turismo rupestre. De revisitar a paz das pequenas coisas. “Viajante não é uma pessoa comum”, diz-se. Não é mesmo. Há um tempo particular de contato e de influência. Cada um sente seu cada qual. Procura-se o astral da vida na estrada. Com ou sem dreadlocks. Sendo hippies ou não. “O que você vai precisando, vai aparecendo pela frente”, tenta-se explicar o caminho, que inclui vasculhar comida no lixo, vivendo das sobras da sociedade.

“Estradeiros” é muito mais que uma crítica social e ou uma militância social, ainda que aborde a re-apropriação das terras indígenas (“Terra é futuro”), e sim, uma poética e popular crônica. De intercalados fragmentos flashes, como cenas videoclipes de instantes existencialistas. Filmado no Brasil, Argentina, Bolívia e Peru, incluindo cubanos, americanos, colombianos, o documentário é uma observação auditiva de imagéticas e autorais interferências. “A vida é um buraco”, finaliza-se. Sim, a estrada vai além do que se vê, já cantou Marcelo Camelo do Los Hermanos na música “Além do que se vê”, grupo que já perguntou “O que é ser vencedor?”, que felicidade nada mais é que “levar a vida devagar para não faltar amor”, e que ensina “Faço o melhor que sou capaz só para viver em paz”.

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