Armários Destruídos (sem nenhuma possibilidade de volta)

Por Fabricio Duque


Há um imenso abismo paradoxal quando o tema da homossexualidade é abordada, principalmente nos tempos atuais, visto que não deveríamos mais posicionar limites à plenitude existencialista do ser, e sim nossa natural desimportância. A lógica é que cada um seja do jeito que é, sem preocupações em precisar de uma padronizada adequação. Se a tendência era a liberdade, hoje vivemos no mesmo retrocesso de outrora. Nunca se entendeu o conceito da majoridade social. O que é a sociedade se não um reflexo do próprio povo? E se as pessoas são tão diferentes e plurais em suas escolhas, achismos, preferências e comportamentos, por que então todos precisam seguir imagéticas regras definidas? Quem pulula e impõe estes mandamentos?

Estas e infinitas outras perguntas e questões são estimuladas em seu público quando se assiste ao documentário “Abrindo o Armário”, dos diretores brasileiros Dario MenezesLuís Abramo. Pelos depoimentos pessoais de dezesseis gays assumidos, entre eles Ciro BarcelosJoão Silvério Trevisan, permite a cada um catártico e público desabafo. São confissões de seus medos contra uma “sociedade doente, hostil e escrota que oprime, mata e julga”. São verdades contadas, dramas vivenciados, violências sofridas, como a agressão física do pai e abandono pela família.

Na primeira cena do filme, o crédito na tela: “Eu sempre fui viado. Mas jamais deixei de ser homem por causa disso”, frase de Madame Satã (uma homenagem a sua memória). “Viado” não é mais xingamento. Não incomoda porque os gêneros, desejos e quereres definem noções exatas do que são e o que gostam. São gays. E felizes. Ser “viado” é um ato político. Uma apropriação do corpo. Uma aceitação não binária. Uma percepção de que a mídia não as representa. Artigo que deve ficar no feminino por se tratar de “bichas”, termo este com muito orgulho e luta.

“Abrindo o Armário” já explicita em seu título que o objetivo é adentrar na intimidade para captar a essência e até mesmo a quebra do desenho de suas características. Por shows-performances, histórias, lembranças, abordagem de épocas políticas, o filme conduz o espectador a um universo próprio da noite gay paulista em seus escondidos submundos quase berlinenses, que quer desconstruir a própria ideia do homossexual. Mais uma vez, nossos pensamentos voam e perguntam: Por que? O que causa tanto desconforto e incômodo? Fazendo com que jovens tentem o suicídio porque são o que são. Por que cada pessoa não pode ser como quer? Sinceramente, não há respostas. E sim resquícios entranhados de uma sociedade machista “cabra-macho”. “Por que matar a bicha? Para o seu conforto?”, confronta.

A obra em questão pode ser uma “altar gay” de adorar novos deuses guerreiros e os homenagear ao ouvir suas vozes. Uma das personagens, a Linn da Quebrada, que já foi protagonista de outros filmes, entre eles, “Bixa Travesty”, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla; “Meu Corpo é Político”, de Alice Riff; e “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano. Linn transcende a questão de gênero e se firma como um ser-discurso com sua provocativa e direta música, após ser “desassociada da religião Testemunhas de Jeová”.

Entre “narcisismos da homossexualidade”, a “periferia como um lugar de conforto”, a androgenia de Londres, as novidades de New York, “sobrevivências autorais e econômicas”, o “pecar que foi bom”, “fuxicos” dos bares, todas “ocupam as beiradas” em seus corpos “falhos”, quebrando o espelho da semelhança de Deus para “criar novos deuses e deusas”. Não são “super bichas”. Aprendem a “ter um relacionamento” (“não casamento, mas no poder do companheirismo”), a envelhecer e “complementar o respirar”. “Quanto tempo a gente aguenta sem ter grana”, pergunta.

“Abrindo o Armário” acontece pela liberdade narrativa e cria também sutilezas metafóricas, como a câmera que se posiciona entre a entrevistada e duas entradas de dois banheiros (eles e elas). O filme é uma colagem fragmentada de temas abordados. Invoca Dzi Croquetes e a irreverência transgressora; a figura do gay palhaço “bobo da corte”, o youtuber que se assume aos fãs, travas feministas, ex-padre, a clandestinidade e a Aids que “brochou o mundo”. “Ninguém mais se olhava. Havia o medo”, diz.

É um longa-metragem de episódios. De histórias intercaladas. Que vez ou outra podem se encontrar. No mesmo meio. Ou no mesmo espaço geográfico que é a selva solitária de pedra da cidade de São Paulo. O que sentimos é um grito, que antes enjaulado, sai para o documentário que chegará “todas as bichas do Brasil”. Uma música “barulho” para ser “ouvida” do monopólio de “quem tem voz e quem pode falar”. “Não adianta fugir, a bichice vai te perseguir até o final”, finaliza aumentando a potência. Seu tom livre desenha uma orgânica engrenagem. De vidas pulsantes. De desejos desnudados. De sonhos em construção. De conservar a identidade e lidar com as consequências do caminho imposto. E se tudo fosse igual ao sonho da personagem em “Meu Mundo em Cor-de-Rosa”, de Alain Berliner? E se o outro pudesse ser o que quisesse? Isso afetaria em alguma coisa outra pessoa? O problema do mundo seria resolvido se cada um parasse de olhar ao cu alheio e se preocupasse com seu próprio. E daí se é usado ou não? Questão de gosto. Há pessoas que não comem cebola, por exemplo. Outros a fritam caramelizadas. E daí? É um retrato aprofundando sobre os processos de libertação e de conquistas de independência do movimento gay no Brasil.

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