Tradição das epopeias

Por Vitor Velloso

Durante o Anima Mundi 2018


A animação “A Ganha-Pão”, que concorreu Oscar de animação 2018, possui um início emblemático, uma imagem definidora do caráter da personagem, onde vemos a protagonista como um feto no ventre materno, em pleno desenvolvimento. Essa característica de amadurecimento, norteia o longa dirigido por Nora Twomey.

Partindo de uma premissa simples, o roteiro segue um padrão, onde vemos diversos aprendizados morais sendo construídos a partir das pequenas cenas. A vantagem é que aqui existe um progresso narrativo, ainda que lento. Na trama, Parvana, tem seu pai preso por uma injustiça e deve, com a ajuda de sua mãe e irmã, tentar sustentar a família na ausência da figura paterna, em um mundo misógino e violento.

Nora desenvolve um fascínio do espectador pelo ato de contar histórias, algo que vêm se perdendo no mundo contemporâneo, a história oral, algo que o pai de Parvana preserva com muita naturalidade e que a protagonista tenta renegar, argumento que está crescendo e ficando velha para esta atividade. Essa tradição, é mantida na narrativa a partir de uma perspectiva de animação diferenciada, quase como um mural. A intenção em retratar essas histórias em um planos diferenciados, resulta numa eficiente construção atmosférica, que foge a realidade convencional, construindo esses breves escapes como uma construção moral e construtiva.

A forma como esses breves, mas valiosos, ensinamentos são passados de forma quase hereditária é parte da beleza do filme. Parvana transmite essas pequenas anedotas para seu irmão, em uma paralelo bastante claro, e clichê, com a própria luta. Esta pequena grande epopéia que ela deve traçar para conseguir o básico, o direito de ser uma criança. As questões femininas no mundo islâmico são retratadas na mãe, que é espancada pelo ato mais banal de andar na rua sem estar acompanhada do marido, ainda que este esteja preso. O desenvolvimento de sua personagem é dado por uma resistência passiva mas paciente, que deposita esperança mas possui certo medo do que pode ocorrer a sua filha.

Existem diversas fragilidades na obra, uma delas é que diversos personagens são jogados a esmo pelo roteiro, sendo eles, um eixo de extrema importância para a desenvoltura da história e da protagonista. Algumas liberdades quanto a violência são tomadas aqui, o que de certa forma perde uma parte do peso, pois, a gravidade dramática do filme está nessa violência que rege o país. Essa breve censura é por conta do público alvo, é claro. Existe uma tentativa de suavizar este universo para as crianças, ainda que não seja um projeto infantil.

Mas não pode-se ignorar uma das frases mais belas do filme, a última.

“Eleve as suas palavras, não a sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

Um lição batida, mas ainda atual e necessária. É necessário contextualiza-la para o local onde se passa a história. Infelizmente, é um filme falado em inglês, dirigido por uma irlandesa, o que sempre é um problema de representatividade, não apenas na animação, como no cinema em geral, ter a história do próprio país contada por uma pessoa nativa, aparentemente é um problema de distribuição, o que aqui foi a chave para o mesmo. O que provavelmente rendeu essa indicação ao Oscar, inclusive.

Assim como a língua falada incomoda, às vezes a falta de coragem de ir além do público, incomoda, coisa que “Valsa com Bashir” entende ser necessária. É uma questão de proposta temática e como você lida com isso na linguagem. Acho o outro projeto muito mais eficiente, até pela trilha, que aqui é um bocado genérica e repetitiva, não representa um peso dramático ostensivo, mas não incomoda.

Sem dúvida, o público do Anima Mundi irá adorar, provavelmente vencerá alguma categoria do Júri Popular, se enquadra perfeitamente no que o povo aprova. Possui muitas fragilidades, não é tão sólido quanto parece, mas sem dúvida é uma animação eficiente, pungente e que consegue gerar um pequenino sorriso ao seu final, essa satisfação é ambígua, pois o ritmo é muito desacelerado para a urgência da trama, mas ainda assim, tudo está no seu devido lugar.

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