A chave que liga a loucura nossa de cada dia

Por Fabricio Duque

Festival do Rio 2017


Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2017 (em uma sessão especial com estudantes adolescentes de uma escola do programa Namoro à Distância), “Animal Cordial”, da diretora Gabriela Amaral Almeida, que chega aos cinemas quase simultaneamente ao lançamento de seu mais recente filme “A Sombra do Pai” (que será exibido neste ano no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro), é uma visceral experiência às psicopatas entranhas do ser-humano, construindo-se assim uma violenta e explosiva imersão à mudança-chave da cordialidade para uma sanguinolenta vingança social.

“Animal Cordial” é uma necropsia “Dogville” (de Lars von Trier), entregando-se a catarse das emoções destituídas de senso do bem ou do mal. Um Thriller de suspense logo percebido em sua abertura policial à moda de “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher. A câmera personagem espreita, hesita e entra. Projeções são mentalizadas, como quando um cliente come de forma mais rápida. Ruídos potencializados, às vezes até mais alto que os diálogos. “É muito homem para pouca carne”, diz.

Nós somos conduzidos à organicidade das ações, reações, comportamentos e consequências. Tudo dentro de um restaurante. É uma comédia da vida privada com humor agressivamente negro, que, bem no fundo, infere a “O Bar”, do espanhol Álex de la Iglesia, pelas situações propositalmente desengonçadas conduzidas pelo acaso e por uma estrutura de planejamento que não dá certo por causa de suas complicações.

São Paulo. Inácio (o ator Murilo Benício – irretocável no papel) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (o ator Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (o ator Humberto Carrão) e Nuno (o ator Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (a atriz Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (o ator Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (o ator Jiddu Pinheiro) e Verônica (a atriz Camila Morgado).

“Animal Cordial”, produzido por Rodrigo Teixeira (de “Me Chame Pelo Seu Nome”), é a resumo da máxima de estar no lugar errado na hora errada. O espectador também é convidado para participar dos bastidores (não de todos): descansos, toques, massagens, insinuações para “transar”, os novos clientes “metidos” que chegam (mas não entendem da boa comida e pedem “vinho top por ser caro”), o policial aposentado (que errou de caminho) e a espera de um crítico gastronômico (a comida nova do cardápio especial).

É um filme de situações. Dentro de uma aura de perigo iminente. De sensação de que algo acontecerá a qualquer momento. Sim, a primazia do longa-metragem é a construção de sua ambiência e seu som sensorial a La “Blade Runner”, “Tron” e “Twin Peaks”.

Há algo de “Estômago”, de Marcos Jorge, e de “Pegando Fogo”, de John Wells, pela desconstrução da figura do Chef (“Teste de um artista com inspiração nas viagens e memórias de família”). “Comida é arte”, diz o cozinheiro transexual com turbante. E quando menos se espera, “Animal Cordial” surta sem o querer do equilíbrio. “Tua cisma é meu cu”, grita.

O roteiro desembesta-se como irresponsável, over, atacado, surreal, esquizofrênico, impulsivo, louco, destrutivo, sujo, decadente e bem mais direto, como “suco de boceta”. É “tudo lixo”, entre xingamentos, ofensas e um que de Quentin Tarantino com Martin Scorsese (pela quantidade de elementos viscerais). Com seus alívios cômicos que buscam a graça séria, perspicaz, espirituosa, cúmplice, e não pastelão, ao inserir idiossincrasias físicas (não apertar por causa de problemas de circulação). “É muita pose para pouca merda”, diz.

É um filme que vai “sujando” a trama à moda de “Uma Noite de Crime”, de James DeMonaco, expondo fisicamente a podridão das vidas imundas de cada um em suas loucuras. O acontecimento acorda o lado psicopata deles. É um estudo terapêutico de choque da maldade humana. Do canibalismo social. De salvar o mundo destes “patéticos” seres. Sem culpa ao assistir morrer. Jogadas frias e calculistas. Em um determinado momento a câmera sai e entra.

Todos são animais, inicialmente cordiais, depois selvagens feras acordadas. Tudo cansa. E sangue mancha. Afetando os transtornos obsessivos compulsivos. “Sinto muito pelo seu cabelo”, um pede desculpas, entre escatologias, torturas, striptease, o sexo animalesco, desregrado, epidêmico, pandêmico, ávido. “Animal Cordial” é feito com raiva, caos, sangue um desejo incontrolável de se perder no processo da própria criação. E sobre os alunos adolescentes, nenhum deles, soltou um pio sequer, permanecendo do início chapadamente quietos. Sim, a moral da história: um filme sobre a paixão desenfreada e sem limites, que não permite não como resposta. E que os verdadeiros loucos sempre conseguem o que desejam.


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