Da fantasia resignada à realidade surreal

Por Fabricio Duque

Festival de Cannes 2018


Exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes 2018, vencendo o Grande Prêmio, e o Melhor Filme pelo Vertentes do Cinema, “Diamantino”, dos diretores americanos Gabriel Abrantes (também português) e Daniel Schmidt, chega em terras brasileiras integrando a seleção do 28a edição do Cine Ceará (dia 10/08, sexta-feira, no Cineteatro São Luiz). É um filme que joga com muitas camadas perceptivas. Seu argumento na verdade usa o futebol apenas como um metafórico e crítico pano de fundo para assim mergulhar nas entranhas dos comportamentos sociais.

“Diamantino” é uma imagética experiência estética. Com uma narrativa ao tempo do realizador João Pedro Rodrigues. Uma fábula que desconstrói um passivo ser-humano e o regurgita com a característica humanitária. De uma alienação fantasiosa, quase autista, a uma realidade nua, crua e que incomoda. O protagonista acorda de um transe, de uma midiática massificação. Seus interesses mudam de foco. A necessidade solidária faz com que perca a concentração, e também seus imaginários “puppys”.

Diamantino, qualquer semelhança com Christiano Ronaldo não é mera coincidência, principalmente pelo visual metrossexual, interpretado pelo ator Carloto Cotta, da trilogia “Mil e Uma Noites”, “Tabu”, “Montanha”, é uma estrela do futebol mundial, até que, de repente (por um insight despertado da condição do estágio atual), perde seu talento, sendo visto como um fracasso aos olhos da opinião pública. A partir disso, o ex-craque passa a procurar um novo propósito para a sua vida. Inicialmente ele resolve confrontar o neo-fascismo, em seguida se envolve com a crise dos refugiados, chegando na questão da modificação genética até a busca pela origem do genial.

O longa-metragem é uma crítica pela tipicidade ingênuo-sarcástica do humor português. Que conjuga a verdade imediatista (sem pensar e ou suavizar) com o verborrágico embate cúmplice, potencializando a característica inerente dos nossos colonizadores. Outro ponto é sua palpável atmosfera surrealista. Uma aura etérea de sonho projetado. Uma viagem ao desconhecido. Ao conhecimento ainda limitado.

Diamantino é um inocente fantoche mimado e sentimental, à moda de um personagem Kitsch de Pedro Almodóvar. Com a sincera pureza das crianças. Uma adulto infantilizado e acuado que ainda não entendeu a idade que tem. Alguém que alimenta a catártica paixão esportista do povo. Um ignorante “traficante” que vicia torcedores, tudo porque o gol significa perpetuar a felicidade e também aumentar a renda dos dirigentes dos times e dos patrocinadores.

Dentro de um mundo-entretenimento histérico, tóxico, competitivo, egocêntrico, manipulador, falso e disfuncional. Com suas irmãs agressivas, oportunistas e mercenárias, que acreditam que qualquer ação boa é única e simplesmente para “reconquistar os fãs”. O ex-jogador busca conservar a resignada esperança percebida na narração inicial do filme sobre as memórias com seu “papa” e as “figuras sublimes” dos tetos das igrejas que “dão fé às pessoas”. Cria-se desta forma um paralelo com a arte do futebol e com a arquitetura nas tomadas áreas dos estádios. “Agora a arte mais bonita de todas é criada aqui nesta nova catedral”, diz, e ele, “o novo Michelangelo”.

“Diamantino” é uma obra sobre a intolerância xenófoba. Ao “adotar” um refugiado, nosso protagonista é confrontado com a aceitação das diferenças, permitindo expandir sentimentos e possíveis vivências. Aos poucos, vitimizado pela ciência, ele torna-se o retrato real de si mesmo, encontrando a mais primitiva e intrínseca essência de sua existência. Tudo envolto em uma aura cósmica de universo compactuado, que bagunça o caos para salvar uma alma ao paraíso. Por uma câmera que remete àquelas das transmissões televisivas dos jogos de futebol.

É um filme jornada. Um épico de mudanças. Uma possibilidade de sentir. Pausar o tempo, adentrar na epifania sensorial, redefinir crenças enraizadas, desconstruir-se para aceitar o novo que aparece mais subjetivo, mais pessoal, mais humanizado. É um confronto de não mais olhar desgraças e fingir, e sim intensificar o incômodo. Usando o dinheiro do sistema para diminuir o sofrimento dos outros. Ser mais altruísta. Pensar menos na quantidade de carros e mais no bem estar social. Um filme de muitas questões, muitos subtextos, muitas quebras de hipocrisias e futilidades. É uma orgânica, autoral e estilizada análise antropológica sobre nossa contemporaneidade e sua bolha que aprisiona ao invés de libertar.

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