Subversão Solar

Por Filippo Pitanga

Direto do Cine Ceará 2018


Um messias… Ou deveria dizer uma messias? Jesus Cristo foi um messias. Maria Madalena sua apóstola, mas não uma messias. Por que não? Poderia ter sido… A ordem social decerto seria completamente diversa da proposta até então historicamente. Ou não? Seria apenas uma questão de gênero ou também da materialização da espiritualidade? Já dizia Nietzsche em seu brilhante e geralmente mal interpretado livro “O Anticristo” que Jesus Cristo seria uma de suas figuras históricas favoritas, ou seja, um excelente modelo a ser seguido de humanidade, não fosse o fato de a Bíblia depois modificar seus exemplos demasiadamente humanos ao retirar a carnalidade de seu espírito. Ao fazê-lo nascer de uma concepção imaculada e também ressuscitar após a morte, a instituição religiosa que se utilizou da imagem de Cristo como égide central de seu regramento acabou impossibilitando que seus fiéis seguidores pudessem aspirar ao exemplo ilibado, pois o suspendeu num patamar inalcançável, intangível e distante.

Mas e se um filme propusesse que a pessoa messiânica se aproximasse bastante de como todos e cada um de nós é na vida real? A pessoa amaria e seria amada, sofreria as mazelas e se revoltaria, condenaria e se arrependeria, pecaria e se regozijaria… E se o gozo de ser como nós é o que a faria uma divindade, realçando o divino em todos nós? Seria profano ou a profanidade seria divina? Não, não estamos falando de “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese, nem de “Anticristo” de Lars Von Trier. Estamos falando de “Sol Alegria”, um filme familiar por excelência, realizado em família, sobre uma família, e sobre a geração de uma messias demasiadamente humana.

Dirigido por Tavinho Teixeira e sua filha Mariah Teixeira, ambos protagonistas também do filme, “Sol Alegria” pode parecer o título de música inocente dos Beach Boys apenas no nome. A inocência aqui é profana. O que os outros entendem por pecado na sociedade aqui neste filme é libertador e resgata a pureza da alma. Na verdade, ousaria dizer que as provocações de “Sol Alegria” são tão puras e solares que provam mais uma vez ser a mente humana quem não apenas deturpa como quer deturpar o que já seria completo e íntegro por si só, fazendo um bem ao corpo e mente ao invés de nos privarmos disso. Aqui o inferno são os outros, como diria Sartre, e o que deturpa será encontrado fora da tela de cinema desta vez, entre nós, os espectadores.

Talvez seja um filme mais transgressor… Talvez estejamos precisando de mais subversão. Mas por que transgride aquilo que deveria ser o mais natural? Comer…amar…curar… defecar! Sim! Ejetar ou expurgar tudo aquilo que nos faça mal. Por que filmes, que deveriam reproduzir e partir de uma base do que ditamos para nós mesmos como mais humano, acabam parecendo reproduções artificiais do que jamais faríamos no cotidiano? Por que filmes não gostam de mostrar as pessoas fazendo suas necessidades no banheiro ou andando nuas dentro de casa sem nenhuma conotação sexualizada? Ao mesmo tempo, por que temer o sexo? Temer apenas o temer, o não ousar, o não experimentar algo que possa fazer um bem a si. Sem nunca experimentar ou errar, nunca saberá.

Mas não é só de filosofia que se faz o filme. Para contar a história desta família especial que transporta a salvo uma messias afora de um território marcado por uma Ditadura (alusão ao Brasil de 64?! De agora?), de uma família libertária e hedonista, com membros de sexualidade e gêneros fluidos e às vezes incestuosos, “Sol Alegria” contém tantas realidades e propostas que cria vários filmes contidos dentro um do outro. E, para apaziguar o tranco da jornada e segurar na mão do espectador a cada transição, cria uma das ideias mais inovadoras que uma tecnologia retrô reciclada para o presente de forma inventiva poderia alcançar: Desde priscas eras o Cinema se utiliza do fundo falso, uma tela colocada atrás do cenário para fingir transportar os personagens para outra atmosfera de acordo com o background escolhido. Algo herdado do teatro, onde um palco pode virar florestas ou viagens intergalácticas mudando simplesmente o mural pintado ao fundo. E o cinema evoluiu esta técnica para telas projetadas, como nas eternas cenas de carro onde os personagens não estão dirigindo de verdade, nem o veículo está se movendo, mas tão somente o deslocamento do cenário está sendo projetado nas janelas do carro.

Eis que “Sol Alegria” se liberta dos grilhões espaciais e leva a plateia em viagens através de telas dentro da tela, de projeções dentro do filme, de onde saem ou entram personagens com novas personalidades, figurinos ou motes. Situações diferentes, complementares ou disruptivas pulam de uma tela para outra, e, num repente, quem estava sendo perseguido pode passar pela projeção de um filme dentro do filme e se tornar o perseguidor. A cada tela interna que atravessamos abrimos janelas interdimensionais concomitantes. Um dos mais belos e marcantes desafios já propostos no cinema recente.

Para quem acha que pode sem querer se perder com isso, não se preocupe. A atuação de seu elenco ancora o carisma na tela independente da mudança de personalidade ou de evolução narrativa – com destaque para a protagonista e diretora Mariah Teixeira (de “Baixio das Bestas”, “Lula, O Filho do Brasil” e “Tatuagem”), que, já tendo ganhado o prêmio de melhor atriz duas vezes no Festival de Brasília, aqui sustenta com excelência se desdobrar em dirigir e atuar ao mesmo tempo, aludindo a uma liberdade de câmera como Helena Ignez pavimentou no cenário independente desde o cinema marginal de Sganzerla e Bressane até suas produções atuais, nas quais também dirige (“Canção de Baal” e “Ralé”, por exemplo). Outro elemento norteador é a reintrodução de personagens criados anteriormente no universo amplo dos outros trabalhos de Tavinho, como o filme “Batguano”, onde ele teorizava o que aconteceria se Batman e Robin se relacionassem e aposentassem no Brasil, descobrindo-se obsoletos na luta pela justiça. Este é um dos personagens que regressam em “Sol Alegria”, interpretado mais uma vez pelo grande Everaldo Pontes, que cumula funções no filme, encarnando também a líder das freiras guerreiras e ativistas numa alusão perfeita a um dos melhores filmes de Almodóvar: “Maus Hábitos”.

No mais, vale ressaltar que o grau benéfico de anarquia horizontalmente coletiva e cooperativa que permeia os personagens também pode ser visto na produção do filme. Tudo parece tão espontâneo quanto ao mesmo tempo planejado, e e cada improviso parece meticulosamente passado pelo grupo na frente e atrás das câmeras, como se todos fossem membros de um corpo  que só anda se os seus movimentos lhe acompanharem em conjunto. O mesmo frescor que parece ter sido tão útil ao rasgar o roteiro e refazê-lo mais de uma vez para possibilitar asas à imaginação mais insana, que não coubesse tudo apenas em uma tela e fosse necessário criar o recurso das várias projeções dentro das telas internas, fazendo às vezes com que os personagens mirem a si mesmos dentro do filme, também parece ter sido calculado na estética multicolorida e kitsch. Para além dos figurinos futuristas (e falta deles também, em nudez naturalista) de forma hiper original, os ângulos e iluminação que acompanham alguns dos enquadramentos parecem pintados à mão, como a cena no lago no início ou a despedida da participação especial de Ney Matogrosso cercado de “cameos” (aparições relâmpagos), como do ator Kelner Macêdo que aqui foi creditado também como direção de elenco.

Um filme atinado com os tempos atuais, que desafia o status quo e a ascensão do moralismo ultra conservador e de quebra ainda faz arte inovadora de primeira — mas não sem chocar alguns espectadores desavisados. Que “Sol Alegria” recrie muitas cartilhas cinematográficas e espectatoriais também!



Enquanto o país está sob o jugo de uma junta militar e pastores corruptos pregam o apocalipse, uma família excêntrica e sem lei – uma espécie de “Bonnie & Clyde” com crianças – caminha pelo interior brasileiro. Seu primeiro objetivo é entregar uma remessa de armas a um grupo de freiras militantes que se retiraram para a selva, vivendo da renda de sua plantação de cannabis.


Tavinho Teixeira nasceu em 1965 na Paraíba, Brasil. Iniciou sua carreira desenvolvendo atividades nas Artes Performáticas e Literatura. Em 2011, iniciou sua carreira como diretor cinematográfico e roteirista com o longa-metragem “Luzeiro Volante”, em seguida realizou o curta “Púrpura” (2012) e o longa “Batguano” (2014).

Mariah Teixeira iniciou seus estudos artísticos para formação profissional de atores, na CAL (Rio de Janeiro) aos 16 anos e fez mestrado em Artes Perfomativas na ESTC-Lisboa (2012-2015). Desde então fez os filmes: “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis; “Se Nada Mais der Certo”, de José Eduardo Belmonte; “Água Viva”, de Raul Maciel; “Lula, o Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, e “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, entre outros, e ganhou duas vezes o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília. Na TV fez a minissérie da TV Globo “Justiça”, de José Luiz Villlamarim, e o telefilme “A Musa Impassível”, de Marcela Lordy. No teatro, integrou o elenco das montagens de Gustavo Paso, Roberto Alvim, Enrique Diaz, Mariana Lima, Francisco Carlos e Antunes Filho. Integrou também o elenco dos grupos Nós do Morro, Cia dos Prazeres e Teatro Oficina. Recentemente codirigiu e atuou no longa “Sol Alegria”, que estreou no Festival de Roterdã e venceu o prêmio especial do júri no Festival Olhar de Cinema. Atualmente prepara-se para dirigir o curta “Rafaméia”.

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