A História através dos Sabores

Por Michel Araújo


A relação entre as culturas orientais parece demasiado confusa aos olhos ocidentais. A diversidade de línguas que aos ouvidos leigos soam tão semelhantes, ou as culinárias que para um brasileiro, por exemplo, acostumado ao quase insubstituível arroz com feijão, aparentam quase indistinguíveis. Mas um olhar de dentro deve nos desprender da totalização continental provocada pelo eurocentrismo em continentes tão mistos e diversos como África e Ásia. “Lámen Shop” (2018) nos coloca dentro de uma diversa realidade muito singular – a de Singapura – e tensiona as fronteiras culturais entre povos asiáticos como os chineses, japoneses e os singapurianos, habitantes dessa curiosa cidade-Estado do leste asiático.

Acompanhamos a história de Masato (Takumi Saitoh), um jovem japonês que após a morte de seu pai (Tsuyoshi Ihara), dono de um restaurante, decide saber mais sobre o passado de seus pais e viaja à Singapura numa busca pelas memórias através da característica arte culinária de sua família. Simultânea a essa narrativa, no tempo presente, temos flashbacks que revelam a relação entre seus pais e como ambos lidaram com suas barreiras culturais, desde seus idiomas, que os obrigam a se comunicarem através do inglês – nos lembrando que há uma infinidade de diferença entre as línguas asiáticas – até os confrontos familiares motivados pela nacionalidade japonesa de seu pai, a qual sua avó (Beatrice Chien) desaprova profundamente, em vista de seu avô ter morrido na guerra contra a ocupação japonesa em Singapura. Esse drama familiar, apesar de aparentar ser de pequena escala, evoca, contudo, todo o embate entre essas duas culturas, originado por essa triste memória histórica, e a narrativa busca numa universalização do paladar aproximar os personagens como humanos ao mesmo tempo que não esquece de ressaltar a importância de cada cultura. Essa breve ficção nos afirma algo muito real, que é o trabalho delicado de manter as diferenças que realmente importam, e se manter conectado a sua história, para simultaneamente superar as tragédias do passado.

O drama é bem executado através da atuação, apesar de nenhum ápice ou clímax vir a mente dentre da encenação. A naturalidade das representações, especialmente do jovem Masato e madame Lee, sua avó, mantém uma harmonia que evita qualquer destoancia no plano cênico. Uma atuação sóbria e contida impera ao longo da obra. O trabalho de direção de Eric Khoo (“12 Storeys”, “Liang Po Po: O Filme”), entretanto, carece de uma linguagem mais desafiadora, que iria emancipar o público e colaborar para a provocação crítica da narrativa. O aspecto, talvez, mais particular da estruturação seja o caminhar de duas narrativas em tempos distintos que, curiosamente, se encontram no ato final da obra. Para além disso o trabalho de fotografia, desenho de som, regras de composição de quadro e montagem não se aventuram na possibilidade de provocar ainda mais a reflexão do espectador, expandindo o leque de leituras de um trabalho com tanta energia potencial. Mesmo sendo consagrado como o responsável pela revitalização do cinema de Singapura, Khoo nos deixa devendo esse tempero adicional em “Lámen Shop”.

“As diferentes culturas e etnias de Singapura fazem sua culinária ser tão variada”. Saímos com esse pequeno excerto da realidade em nossas mentes – uma fala sucinta aos 48 minutos do longa –, e a singularização dessa particularidade que é a relação cultural e mnemônica com a culinária. A evocação da memória através do paladar – como quando Masato prova uma receita de sua avó que o lembra instantaneamente de sua mãe – é a chave para o coração da obra singapuriana que exalta a nacionalidade com respeitável humildade ante a nossa totalização como seres humanos. Todos somos ligados por nossa capacidade de sentir e experimentar a realidade, e com nossas perspectivas subjetivas acerca da história e das sensações evocadas através dela. Por mais contida que seja a linguagem propriamente cinematográfica, o roteiro e o drama narrativo extremamente bem construídos não deixam de emocionar e perpassar as barreiras da nacionalidade e da cultura para provocar essa catarse empática, capaz nos posicionar de forma muito sutil e singela dentro do olhar do outro. Esse outro singapuriano que para nós, ocidentais, é tão desconhecido e remoto se aproxima, se torna familiar, e se impõe na história como igualmente humano e igualmente sincero.

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