Contatos sensoriais, imediatos e com tempos próprios

Por Fabricio Duque


Não satisfeita apenas em realizar um documentário, a diretor Gabriela Greeb desejou e conseguiu transcender as barreiras características e expandir os limites da criação que durou dez anos. “Hilda Hilst Pede Contato” é mais que uma simples e clássica obra biográfica. É uma experiência sensorial metafísica. Que não traduz, mas traz a presença da poeta escritora até nós. É um mergulho na epifania essência da mais pura inerência existencial. Este documento é uma obra de ficção científica, de suspense sobrenatural. Que conta curiosidades particulares a trajetória de Hilda Hilst.

“Hilda Hilst Pede Contato” constrói um tempo único, uma poesia etérea, uma ambiência sensorial, em um desenho sonoro que busca a vibração cósmica-espectral, a frequência exata do contato imediato do terceiro grau. Que se embrenha na sensação desgarrada da realidade como uma sessão espírita e ou do jogo do copo que invoca espíritos. Os mortos que estão vivos.

É um filme (obrigatoriamente para ser assistido em uma sala de cinema com som de qualidade) que causa medo real pela entrega das imagens e do desprendimento em encontrar respostas sem perguntá-las. É para ouvir o contorno da voz. E sentir a voz material para que fique viva. A diretora disse que o filme foi feito com “amor e resiliência”.

E complementa que a historinha argumento era sobre uma morta, do longe do universo, como um cavalo de seu poema “Éguas da Noite”, que volta para sua casa para entrar em contato com os vivos (que são os convidados e o próprio público). E que quando ouve sua voz, morre de vez.

“Hilda Hilst Pede Contato” é assumidamente autoral ao conservar e condensar seus conceitos na tela. É respeitoso à figura da biografada por só conter sua voz, sem nenhuma interferência. Com a tela preta do início, nós só ouvimos, quase fantasmagórico. Ela queria “ajudar as pessoas do medo que tem da morte”.

A fotografia arquiteta um caminho estético e psicodélico (com sua névoa cênica), conjugada com o som frequência de duas rádios. A câmera procura o encontro mediúnico. Convida o ser inter-espacial. Pela natureza ancestral, de energia primitiva e psicotrópica. E o espectador adquire a habilidade de perceber a aparição, como a sombra na nuca.

Hilda, “que é uma pessoa, porque não vai morrer nunca”, acreditava em seres do espaço, teorias do tempo, nos sinais do universo, cristais e na transmissão a outra dimensão. “Vocês mortos vivem?”, perguntava sobre a morte e a vida. “Brocha” e se sentindo “debiloide” por não obter contato algum. Era uma pensadora, imersa no gravador de vozes e no trânsito intelectual com os amigos. Ela “materializava o espiritual”. “O vento também é um objeto que o poeta chama de palavra”, diz-se.

“Hilda Hilst Pede Contato” tem um que de “Twin Peaks”, de David Lynch. Pela busca da vibração exata. Pela imagem revertida. Pela personificação imagética das lembranças granuladas, como o arquivo cantando. O filme só acontece como acontece pela intensidade, estranheza e esquisitice. É a maestria foco. Inclusive a do cachorro no cio explícito. E ou como a cena de uma mulher no meio dos porcos. “Depois do pó, nada”.

Tudo é referência e metáfora. Todos são convidados a viver Hilda Hilst. A comer igual. A ler igual (“O Testamento de El Greco”). Em uma mesa compartilhada de memórias à moda de “Coco”, animação da Pixar. É um “Fringe” abrasileirado e nunca hollywoodiano.

É muito mais que um documentário. É cinema transcendência. Que liberta a aura, a alma e o corpo, fazendo com que o perispírito possa se desconectar e assistir a própria experiência de fora. É sobre a escuta com sussurros e silêncios. Sobre canais de áudio do limbo.

Documentário sobre a escritora, poeta e dramaturga Hilda Hilst, considerada uma das mais importantes vozes da língua portuguesa do século 20. Com arquivos pessoais, depoimentos, encontros e intervenções, o filme revela sua memória e presença na Casa do Sol, chácara onde vivia em Campinas.


Esta crítica-percepção continuará ao longo da semana.

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