Olhos famintos

Por Chris Raphael


Chegou às minhas mãos e por estas, aos meus olhos famintos, um pequeno tesouro encapsulado em cento e quarenta caracteres. Era como um delicioso doce, que fui saboreando devagar, em pequenas colheradas, como artifício para provocar o prazer e demorar-se no gozo. E devo confessar: foi bom.

Rosane Nicolau é a autora que nos brinda com esta peça literária intitulada “para não dizer que ficou sem título: microcontos, lançado em 2016 pela Editora Jaguatirica. A autora nasceu em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro e sendo bibliotecária de formação, em suas incursões pela literatura já obteve alguns prêmios com suas publicações.

Quantos caracteres é preciso para dimensionar o tamanho de minha admiração? Li este livro de uma só tacada e estou resenhando de um só golpe. O argumento é válido e pertinente, perfeito para a liquidez que nos é imposta pelo momento presente, pela vida agora e já, onde não nos cabe devaneios contemplativos do futuro. Ou cabe?

Esse econômico modelo de literatura não economiza na dose de poesia que derrama em cada palavra. A obra traz, à luz do dia, uma compreensão microscópica sobre o viver e em cada peça, vai dissecando a mente humana, com precisão cirúrgica e bom humor. Literatura de qualidade, que faz bem à saúde e não precisa de prescrição médica.

O poder de síntese é impressionante e com sagacidade nos é apresentado como uma poderosa observação do outro: um caldo de memórias apreendidas em vivências próprias e /ou alheias. O contexto ultrapassa os limites da vida diária e se emaranha na alma das coisas, que também são objetos de profunda reflexão. A perspicácia é autêntica, é instintiva, aflorando na construções das frases. Isso torna a leitura fácil, prazerosa e empolgante. Faz valer a pena os momentos dedicados ao regalo. Mas, era um doce, acabou-se. E fiquei, nos olhos, com o gosto do quero mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados