Juventude fiel e honesta

Por Michel Araújo


A ascensão da era digital – que muitos têm como o divisor de águas para o avanço da pós-modernidade – é realmente um marco na sociabilidade e nas relações amorosas. O século XXI e especialmente a década de 2010 foram inundados pela reconfiguração das formas de comunicação, momento em que a instantaneidade nos auxilia ao mesmo que esta vem acompanhada da efemeridade que nos separa. Um filme como “Ana e Vitória” (2018) é, portanto, muito interessante como retrato fiel dessas relações na juventude de classe média-alta atual.

O longa, dirigido por Matheus Souza (de “Apenas o Fim”, “Eu não Faço a Menor Ideia do que eu to Fazendo Com a Minha Vida”, além de participar como ator no filme “BR 716”, de Domingos Oliveira), estabelece sua proposta como “uma comédia romântica musical sobre relacionamentos casuais”, e cumpre essa proposta de forma honesta e sincera. A narrativa da carreira da dupla Anavitoria – interpretada por elas mesmas, Ana Caetano e Vitória Falcão – tem um papel, à princípio, secundário em relação a suas trajetórias românticas, marcadas por desencontros e desilusões.

A sequência inicial nos mostra uma festa onde Ana e Vitoria se encontram e a partir da qual vão se tornar amigas próximas e iniciar sua parceria musical. Os diálogos, trejeitos e temas apresentados nesse primeiro ato surgem com razoável realismo, de forma que um espectador de mesma idade e classe social quase certamente haveria de se reconhecer ou relembrar momentos semelhantes. Há um momento perspicaz do roteiro em que, nessa festa, Vitória pergunta para seu amigo Bruno se as pessoas ainda “paqueram piscando”, e depois ambos acessam o Instagram e conversam sobre o flerte através do “stories” do aplicativo. Essa revelação das tendências pós-modernas não vem ao público de maneira forçada em momento algum, mas flui naturalmente no contexto da narrativa.

As atuações no geral sem mantém medianas, cumprindo apenas o necessário para a história e não mais que isso. Há a carência de alguma intensidade, fazendo a narrativa se manter meramente “morna”. Mas há cenas realmente cômicas, em especial as tiradas do personagem Ricardo (Victor Lamoglia) em suas tentativas frustradas de fingir casualidade e descompromisso em seu envolvimento amoroso com Vitória, a qual não corresponde a seus reais sentimentos. Além disso, ao olho atento, certos momentos da direção do filme são até bem interessantes, como o breve presságio do término de Ana com sua namorada ao início do filme, ao mostrar seus pés subindo lentamente as escadas.

O longo plano do rosto de Ana sendo maquiado enquanto ela versa sobre seus conflitos internos em comparação ao breve plano de Vitoria sendo maquiada em silêncio, sem ter o que dizer de si mesma. A montagem com cortes rápidos de Ana e sua namorada Clarice (Clarissa Müller) se entremeando nos fios de microfone enquanto cantam, a qual culmina numa imagem de ambas amarradas, representativo de seu relacionamento como algo sufocante. Um simbolismo que poderia ser considerado clichê surpreende, contudo, no contexto da obra.

A dinâmica do roteiro superficialmente parece muito fugaz, uma sequência de episódios amorosos breves e irrelevantes, o que numa narrativa de longa-metragem não possui muita coerência, entretanto, a temática do filme trata justamente de relacionamentos casuais contemporâneas, dentro, é claro, da realidade da juventude de classe-média alta. As interações, diálogos e situações, dentro dessa proposta, possuem uma genuína veracidade, e qualquer crítica à lógica dos personagens e acontecimentos é uma crítica que deve ser voltada para a vida real.

As desavenças de interesses românticos, o conflito da juventude com o autoconhecimento e compreensão de seus sentimentos, a fragmentação da sociedade pelas tendências pós-modernas de negação de uma lógica na vida, todos são conflitos reais e que podem, de fato, ser lidos com sinceridade no caráter da obra. O compromisso da obra de replicar fielmente esse recorte social serve como momento de reflexão para os grupos sociais que se veem representados por qualquer uma das situações ou personagens. Talvez aí resida, entretanto, uma das fraquezas da obra, que é possuir um público-alvo muito específico.

Espectadores muito mais velhos, de diferentes situações socioeconômicos ou até mesmo de outras regionalidades do próprio Brasil podem facilmente não compreender o quanto o filme faz justiça à essa realidade particular, e não são culpados por tal. Realmente, a obra trata de uma realidade consideravelmente particular, e a partir disso podemos pensar criticamente – fora do texto do filme – a situação da juventude e da fragmentação dos grupos sociais jovens, assim como a forte influência da digitalidade nas interações e na relação com o mundo seu redor.

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