Um pistoleiro em construção quantitativa

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2017, “O Nome da Morte” é um filme de gênero. De faroeste moderno. De ação tensionada ao limite com suas fugas e emboscadas. Que busca humanizar escolhas. Da necessidade maniqueísta ao gosto aprendido e despertado do poder. Sua narrativa, limítrofe entre a agitação e ócio pensante do tempo, apresenta-se romanceada pelo artifício de indicar o tempo pela quantificação das mortes.

Dirigido por Henrique Goldman (de “Jean Charles”, com Selton Mello), e estrelado por Marco Pigossi, Fabiula Nascimento e André Mattos, o filme quer a deturpada desconstrução. Aqui, o espectador, inevitavelmente, traça um paralelo do pistoleiro matador de aluguel com a vida fácil de quem entra para o tráfico em uma favela. “Cada serviço tem um preço”, diz.

“O Nome da Morte” é o típico filme quebra-cabeças não-linear em épocas. Passado (protagonista com espinhas no rosto), presente (a ação propriamente dita) e futuro (a desistência comeback). Os detalhes são apresentados em elipses, como a “não habilidade para trabalhar” e a “filha do patrão”. A trama versa sobre Júlio Santana (Marco Pigossi), um pai dedicado, um homem caridoso, um exemplo para sua família e um orgulho para os seus pais. No entanto, ele esconde outra identidade sob essa fachada: um assassino profissional responsável por 492 mortes. Entre a cruz e a espada, entre a lei e o crime, Júlio precisa descobrir uma forma de enfrentar os seus demônios.

Júlio é forte, bonitão, tem a mira excelente para atirar, quer entrar para a polícia (“incrível como uma farda causa respeito”), mas precisa “confiar mais no seu taco”. É também um filme de estrada. Um road-movie do campo à cidade. Entre guitarra, calor, omelete, roupão anos setenta, lasanha com frango e alívios cômicos, Um presente de padrinho ao afilhado. “O Nome da Morte” é um épico de aprendizagem (do ofício ilícito). É sobre a aceitação da maldade que corrói a vontade como um vício e um exercício à perfeição.

Mas é um longa-metragem que quer o mais. Nunca o menos. Pululado de questionamentos sócio-comportamentais (do estereótipo orgânico, como o atendente gay, o garoto manco, a garçonete, tipos que falam sozinhos, flamenguistas, a aula de conga).

Ainda que caminhe pelo universo de matadores contratados, com o lema de “servir bem para servir sempre”, e que romantize o pistoleiro (“uma boa profissão”), o roteiro cai em armadilhas facilitadoras, em gatilhos comuns de arredondar a trama. Não há como não referenciar a semelhante temática do filme “Comeback: Um Matador Nunca se Aposenta”, de Erico Rassi, com Nelson Xavier.

Júlio não hesita mais. Aceita o que descobriu ser. E não esquece as dicas-regras: “Não pode levar o fantasma de quem matou para a cama”, “Só matar e não roubar” e “Não matar outro pistoleiro”. E assim, é um policial que mata. Talvez uma crítica metafórica a nossa realidade? E à terra sem lei do interior? “Violência é maldade. A gente é profissional”, diz à moda dos filmes de gângster de Martin Scorsese, principalmente os passados no carro.

“O Nome da Morte” não deixa de ser uma aula. Do começo imaturo e indiscreto de falar muito e dos pesadelos à prática naturalista e rotineira de mais um serviço. Fica mais confiante. Mais sensual nos flertes. Mesmo “depois do carnaval”. Com a narrativa encenada que ajuda a trama. E com a presença do ator Matheus Nachtergaele que “rouba” a cena.

O filme incomoda o espectador pela obrigação criada de que precisa explicar tudo nos mínimos detalhes, sendo urgente e óbvio demais. E por forçar o drama. O tempo passa. E a pressa da direção descamba a uma atmosfera demasiadamente superficial, palatável, sentimental, religiosa e de novela encenada ao anti-naturalismo. Mais popular e amador (com a presença de não atores) “Quer se confessar?”, engrena um que de redenção moralista. Com sua câmera nervosa e desengonçada. Neste ponto até mesmo misturamos inferências aos seriados “Breaking Bad” com “Weeds”. E para completar o bojo: a lágrima sentida, os detalhes ingênuos da construção, o Camaro amarelo. Em um final pobre e totalmente fora de tom. E a dúvida será que ele volta, encarada à câmera no estilo “Os Incompreendidos”, de François Truffaut. “Tudo é dinheiro”, finaliza.


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