Açúcar demais nesse café

Por Fabricio Duque


Uma das preocupações que “Café” causa no público é a o medo do aumento da taxa glicêmica no sangue. Sim, tudo porque é uma obra que coloca açúcar demais na bebida homônima. Que não aceita nem por um minuto o tom amargo, esta uma essência característica deste “fruto vermelho que as cabras comiam”.

Dirigido pelo italiano Cristiano Bortone (de “Vermelho Como o Céu”, “10 Regole Per Fare Innamorare”), o filme busca sua construção em histórias afetadas a escolhas livre-arbítrio, por meio da estrutura coral de apresentação (e desenvolvimento) em núcleos autônomos que podem ou não se encontrar, tendo como o pano de fundo a presença marcante do café.

“Café” é uma ode universal e didática (a narração explicativa do início e as incursões curiosas ao longo da trama) a este alimento responsável por acordar e fornecer energia automática ao corpo humano. Em uma narrativa (analítica, adjetivada, palatável e mastigada – “Para dar forças ao acordar, cada um de um jeito: na América do Sul, erva-mate; na Índia, chá”), que busca despertar nossa emoção mais primitiva e mitigada de ceticismos, à moda de “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, e ou pela estética temática dos comerciais de panetone que passam na televisão, um personagem adulto, em determinado momento-cena, ensina a uma criança que “estrelas são iguais a um monte de café”.

Sim, café é uma iguaria. Um elemento de conexão. De aroma perfumado. Tanto que deveríamos abolir a pipoca com refrigerante das sessões de cinema (até porque faz barulho e incomoda) e inserir esta que é produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. O longa-metragem é sobre histórias influenciadas e suas crônicas ficcionais. E com sua câmera próxima objetiva nossa imersão mais intimista por esquetes fragmentadas por edição videoclipe.

“Café” também é um estudo social. De indivíduos tão diferentes e plurais que convivem juntos, compartilhando paixões, gostos e implicâncias, como a violenta passionalidade entre torcedores rivais. Um sinal acelerado da intolerância que ainda paia sob o mundo.

Nós aprendemos que a cidade multicultural no nordeste da Itália, Trieste, é a “capital da produção de café” e que o café mais caro do mundo (um dos mais exóticos), Kopi Luwak, é derivado das fezes de um Civeta. Esta é a maestria: ensinar curiosidades perpassando vidas em espontâneos estágios naturais. Pelo menos na primeira metade de exibição do filme.

Baristas dizem que o café tem três sabores: amargo, azedo e perfumado. Em três cantos diferentes do mundo, histórias são conectadas por esse elemento. Na Bélgica, durante um tumulto, a loja de Iraqi Hamed (Hichem Yacoubi) é saqueada. Seu precioso pote de café é roubado e ao descobrir o responsável ele decide fazer justiça com as próprias mãos. Na Itália, Renzo (Dario Aita), apaixonado barista, se envolve no roubo de uma fábrica e as coisas saem do controle. Na China, Ren Fei (Fangsheng Lu), gerente bem-sucedido, é designado para cuidar de fábrica que ameaça poluir um vale em Yunnan, bela região na fronteira com o Laos.

O longa-metragem é um documento sobre os pequenos prazeres da vida por especialistas que entendem do ofício. Um “Sense8″ do café, e com a trilha-sonora inferência a alguma música etérea-existencialista-esperançosa do grupo islandês Sigur Rós. “A Europa não passa de um belo museu. O futuro está na China”, diz-se com a técnica visual da fotografia a La olho de peixe.

Mas o espectador não consegue definir, tampouco mensurar quando foi a quebra do limite à excessiva doçura afável e a ida à normalidade-cliché padronizada do cinema mais americanizado. Mais melodramático. Romanceado demais. Novelesco demais. Urgente demais. Com suas reações de efeito e seus gatilhos comuns ajudados pelos roteiristas facilitadores. E seu desdobramento anti-naturalista. Os detalhes que conectam culturas pela apreciação cafeína descambam com o querer potencializado de inserir tudo e qualquer coisa, como por exemplo, um protesto contra a situação econômica. Sem esquecer a redenção, o retorno, o reencontro, a câmera lenta. Tudo se torna um explicado poço sem fim sentimental e maniqueísta, com seu árabe “Highlander”.

E ou o comentário capitalista de uma personagem que diz “Protestantes que destroem. Por que não trabalham?” ao saque a uma afetada loja de antiguidades, que por sua vez faz o espectador virar leitor e lembrar de um trecho do novo livro “Meia-Noite e Vinte”, do escritor gaúcho Daniel Galera, cuja ação erradia a tradição das lembranças e dos artefatos familiares. E ou a xenofobia “arrogante” (“juízes compassivos, diferentes do seu país que amputam as mãos”).

“Café” é um brinde cotidiano ao café. Selvagem ou não. Doce ou amargo. Ou especial, que cresce em harmonia com a natureza. De micro-ações continuadas e unidas. De questionamento a “o quer quer ser da vida” à moda de “Trainspotting”, de Danny Boyle. De degustar aromas, toques, digressões, sensações, projeções, memórias adormecidas. De vingança “Dogville” de ser. De trafegar na “Disneylândia do café. Concluindo, um filme que adiciona açúcar demais, retirando todo o sabor adulto. Assim está mais para um inocente paladar infantil.

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