Memórias e distâncias de um Brasil contemporâneo

Por Vitor Velloso


“Guaxuma”, que estará na edição deste ano do Festival de Gramado, foi o representante brasileiro na sessão de abertura do Anima Mundi 2018, dirigido por Nara Normande, o filme de quatorze minutos explora uma espécie de brasilidade que vêm sendo consumida pela verticalização social, além de ser um retrato singelo sobre uma amizade que é testada pela distância, pelo tempo e pelas diferenças. Há anos vemos uma parte da história do Brasil sendo completamente dominada por uma devastadora ocupação territorial em busca do capital, imobiliário, de exploração e tantos outros. Este pequeno grande curta tenta resistir a essa dimensão usurpadora da cultura brasileira, ainda que não seja sobre os nativos, o filme mostra uma migração de uma família ribeirinha para a cidade em busca de melhores condições de vida. Histórias como essas foram multiplicadas no século XXI, intensificada com a construção de Brasília, onde a dominação se deu na situação social do indivíduo, forçando ele a deixar o local. Não estou dizendo que sou contra a cidade, mas assim como Ozu e Mizoguchi, reconheço quando uma nação se prostituiu pelo capital.

Felizmente, “Guaxuma” é mais suave em toda essa caracterização, construindo a personalidade de sua protagonista através dos anos, criando um retrato convincente de uma jovem insegura e sua amizade, quase oposta. Seu amadurecimento físico, sendo representado de maneira bem humorada usando elementos locais e sua evolução quanto a timidez sendo representada nos planos que vão se sucedendo. É um curta extremamente pudico no seu relato, há nele uma aura inocente que complementa a brincadeira de linguagens realizada pela diretora. São diversas formas de estética sendo exploradas simultaneamente, com seus propósitos bastante claros. Esse jogo formal proposto pelo filme, rendeu uma sessão de deleite plástico, é um curta lindo, não há outro adjetivo a ser usado.

O curta é simples em sua abordagem, mas acerta milimetricamente em suas temáticas. A complexidade e densidade que ele toma ao longo de sua projeção faz o tom dele quase se inverter, o espectador é pego de surpresa e quando entendemos para onde ele caminha, sentimos o peso das memórias que a diretora apresenta no início, e como elas não apenas moldam nosso caráter mas também são a herança de nossos esforços. E, assim, chega um momento que esses esforços podem não possuírem o poder que desejamos, por isso o apego a memória é uma faca de dois gumes, prende e liberta, dói e cura. Mas a habilidade de Nara, não permite que o público saia da sala de cabeça baixa, basta um pequeno gesto, apenas um, para que possamos sorrir novamente. Agradável, atual e livre.

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