A Segunda Parte da Segunda Edição do Festival Ecrã

Por Vitor Velloso


Em outro dia do Festival Ecrã, pude conversar e entender melhor como funcionava o processo de seleção dos filmes para o festival. O que deixou claro algumas escolhas, assim, claro, como algumas eram óbvias; caso do James Benning, Jem Cohem, Scott Barley e Ben Rivers. Pedro Tavares, curador, deixou claro que se eles assistissem ao filme pela primeira vez e sentisse que ele deveria estar na mostra, ele já passava para a próxima lista, demonstrando um grande caráter pessoal na seleção, o que eu considero um ponto bastante positivo, pois, evita pretensiosismo. Em debate, Pedro também confessou que tentou trazer “24 Frames” do Kiarostami, porém, sem sucesso. A seguir irei discutir um dia onde foi exibido “Confidente” da Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, “The Rare Event” do Ben Rivers e Ben Russell, além do já consagrado “Sleep Has Her House” do Scott Barley. Este último irei tratar em um texto isolado que farei sobre o autor, não aqui.

“Confidente” da Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes é uma obra que divide opiniões. Pelo fator bastante específico da linguagem que é utilizada, assim como a montagem de repetição, ou uma espécie de “efeito rashomon” de uma perspectiva mais formalista e direta. Ainda que muitos não tenham gostado do filme, dizer que não há o que ser discutido, é mentira. Existe uma vitalidade na intenção dos autores, em resgatar um tom anti-interpretativo, porém narrativo, que só é possível, além da idealização, por montadores que compreendem não apenas do ofício, mas também da carga moral que há em cada corte. Assim, as repetições não são feitas a esmo, elas são calculadas em uma progressão que busca sempre a saturação daquele movimento e assim como o Hollis Frampton um dia se preocupou com o foco perceptivo das pessoas, vemos isto acontecendo em “Confidente” através dessa perspectiva mais fragmentada da imagem.

Essas sucessivas repetições que vão formando a construção “narrativa”, avançam pequenos quadros, ou não, o que gera um fatalismo na imagem em movimento. Sentir essa potência da deformação cinematográfica, a fim de sentir a descentralização completa do espaço tempo, para além do que a montagem pode nos fornecer, é uma experiência parcialmente inovadora. Uma suspensão da realidade, entre a própria realidade, que se dá exatamente por essas frequências imagéticas que vão saltando e cortando a tela. Não acredito que seja um filme tão objetivo em seu fim, mas em sua proposta, talvez por isso tenha dividido tantas opiniões.

“The Rare Event” do Ben Rivers e Ben Russell, foi exibido e gerou reações curiosas nas pessoas, um amigo meu ao fim da projeção virou pra mim e disse “Ah, vai se f#*%”, outros saíram rindo do cinema, não porque acharam engraçado, mas não conseguiam descrever o que haviam assistido. Realmente, é um projeto curioso e inusitado. Ele parte de uma proposta de discussão filosófica acerca da realidade, morte, vida, representação e tudo que possa girar em torno de uma obra intelectual artística. Usando Lacan, Lyotard, passando por Kant etc, as cenas são longos debates filosóficos, em longuíssimos planos, que passeiam pelo ambiente. Até aí, bom, um Straub com slider. Porém, com um breve detalhe, um homem vestido de chroma key, que circula no ambiente, entra na frente da lente, senta ao lado dos primeiros homens que estão debatendo. A mise-en-scène toma uma proporção completamente diferente com a presença dele em cena, além disso, suas intervenções diretas na imagem, como impedir que a objetiva capte alguma imagem além dele mesmo, geram mudanças ainda mais bruscas na proposta estética do filme, pois, em seu corpo permeiam uma espécie de simbiose, um organismo completamente digital e artificial que possui um espaço, tempo e movimento próprio.

É impossível não estranhar toda essa proposta, a questão é abraçá-la ou não. Fiz um esforço tremendo, confesso. Consegui em alguns momentos ser levado a experienciar uma forma de percepção que não havia tido até o momento, mas é muito difícil se conectar com uma obra que busca a distração o tempo inteiro. É claro que a performance do homem chroma key, possui sua significância quanto a discussão das pessoas sobre o espaço da realidade e da ficção, ele é uma espécie de ruptura de um equilíbrio imaginário dessa discussão. Porém, tudo isso não possui tanta validade quanto aparenta. E Ben Rivers e Ben Russell acabam indo para um lugar não-comum, mas que anda em círculos, pois o próprio debate existencialista não chega a um fim específico, assim como o filme. Aprecio certos momentos, mas não dá para negar que também sorri ao fim da projeção.

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