Tito e a imobilidade social

Por Vitor Velloso

Durante o Anima Mundi 2018


No Anima Mundi, uma das maiores satisfações é ver como o público reage a determinados filmes ou cenas. Mesmo em sessões infantis, vemos adultos roer unha e torcerem desesperados por seus protagonistas. Essa reação vai além da pacto com a criança, trata-se, verdadeiramente, de uma compactuação com algo muito íntimo do ser-humano. Quem nunca se pegou tendo uma reação física a um filme?

Quando a projeção de “Tito e os Pássaros” se iniciou, os espectadores do Odeon, que não eram poucos, iniciaram uma jornada com Tito. A história do longa se inicia com o pai do mesmo, tentando fazer funcionar, uma máquina que permita ele falar com os pássaros, mais especificamente, os pombos. O protagonista acaba vacilando e o experimento dá errado, a máquina explode ferindo Tito e seu pai. Ambos sobrevivem, mas sua mãe proíbe o encontro dos dois, para a segurança do filho. Um longo tempo se passou, e agora o mundo é assolado por uma doença que inabilita as pessoas. A mídia passa a gerar o pânico na população, para que eles possam lucrar com o medo geral, pois, o apresentador de TV que promove essa reação, é empresário e possui um condomínio, o “Jardim Redoma”, onde, “todos” estariam protegidos do medo. Dr. Rufus, pai de Tito, já havia alertado sobre este acontecimento, dizia que o medo ia dominar a população e que ele se contaminava através das ideias. Então nosso protagonista, deve ir atrás da cura dessa doença, e a cura, está nos pássaros.

A animação usa um estilo extremamente expressivo, com perspectiva própria e uma identidade que se aproxima do expressionismo. Visualmente é bastante criativo, usando algumas transições com elementos da própria estética. Mas o maior destaque vai para a ideia por trás do projeto. A denúncia direta ao reacionarismo midiático que promove o caos, para desestruturar a população e, assim, se eleger através do medo, é bastante clara. A vilania do antagonista, ainda que caricata, está presente exatamente neste sentimento de “progresso”, sempre apresentando uma alternativa como solução, ainda que ela apenas salve parte da população, a que lhe interessa.

O universo criado pelos três diretores, Gustavo Steinberg, Gabriel Bittar e André Catoto, é cativante e assustador, lindo e grotesco. Utilizando esses conflitos como motor ideológico do projeto, a construção alegórica da esterilização do indivíduo como ser social, diante de uma sociedade que passa a afastá-lo por considerá-lo nocivo ao resto da população, e o próprio indivíduo passa a ter medo da sociedade, pois não possui certeza de onde o perigo se encontra, o filme ganha uma proposta de desconstrução do tecido social. Onde a relação entre ser individual e sociedade, se desestabiliza para uma completa anarquia.

“O Surto”, como é chamada a epidemia, é uma transformação, assustadora, das pessoas em pedra, inabilitando-as. E me lembro de uma criança falar para o pai durante a sessão “Mas pai depois que elas viram pedra, o que elas fazem?” E um pai respondeu “Nada, agora ela é inútil”. Curiosamente, a resposta do pai foi um tanto dúbia, de certa maneira ele não está errado, mas convenhamos, não é disso que o longa fala?

Em um país onde um indivíduo passa a ter a influência na população, e não o contrário, quer dizer que o colapso social já está em andamento. A elevação desses totens do poder, à salvação, indicam um alto grau de histeria política. Que é exatamente, onde “Tito e os pássaros” se desenvolve. Ainda que tudo isso esteja no filme, é necessário lembrar que é uma animação da mostra infantil, então, a aventura é o corpo do longa. E esta jornada do protagonista, atrás de seu pai e da cura, é bastante satisfatória, pois, é impossível não se apegar a Tito e seus amigos.

Cheio de reviravoltas e resoluções dramáticas, o filme vai se sustentando a partir das suas propostas ideológicas, pois, a narrativa é um tanto quanto clichê. Mas não há dúvidas que é funcional. E o público reagiu muito bem. Para o público infantil, será um prato cheio de diversão e aprendizado, pois o longa conta com uma breve lição, ainda que previsível, ao final.

“Tito e os Pássaros” é um grande candidato a ganhar o melhor longa do júri popular e tem minha torcida.

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